Fotografia da minha autoria

«É um pequeno épico concentrado»

A humanidade evolui, mas o mundo parece ainda tão pouco acessível às mulheres, enquanto seres autónomos, empoderados e com uma voz que merece direitos e oportunidades equitativas. Por isso, não se torna mais fácil ler obras que espelham essa realidade e as diferenças gritantes entre géneros. Porém, livros como o da Martha Batalha são portas cruciais para evidenciar qual é - e onde reside - o problema.

«Sozinha na cama, corpo escondido sob o cobertor, Eurídice chorava baixinho»

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é inspirado nas mulheres com quem a autora conviveu, cujos destinos foram adiados, minimizados, mostrando que, por consequência, desde a amargura ao conformismo, o espectro de reações também diverge. Portanto, tendo a sociedade brasileira como fundo, esta narrativa retrata aquilo que era normativo: educar as mulheres para serem boas esposas, recatadas e sem quaisquer aspirações de futuro, passando despercebidas. Completamente transparentes. Sem poderem ser as protagonistas das suas histórias.

«- Não venha de novo com este assunto de corte e costura que não aguento mais esta ladainha»

Este manuscrito centra-se em temas como a violência, a marginalização, o machismo, o racismo e os amores proibidos, mas não deixa de ser interessante o contraste do tom utilizado, porque as partilhas são feitas com humor e ironia, sendo evidente a crítica social. Além disso, é notório o julgamento feito pelas próprias mulheres, enfraquecendo o poder da sororidade. Numa espécie de grito mudo, é impressionante como o parecer dos outros é tão condicionante. Mas não é menos perigoso quando há uma parte de nós disposta a sabotar-nos.

«Ver os pais tão vulneráveis fez Eurídice querer protegê-los»

Os apontamentos antagónicos são fascinantes. Porque, por um lado, encontramos vidas reprimidas, mas, por outro, acompanhamos uma protagonista que procura quebrar os padrões impostos e a sua luta interior - ainda que recue, inúmeras vezes, nessa missão. Assim, assistimos à invisibilidade, às metamorfoses e aos recomeços. E compreendemos que, embora conquiste o seu lugar, a mulher continua a batalhar para o manter - seja qual for o contexto em que se insira.

«Só se importava com os livros»

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão parte de questões quotidianas para nos fazer refletir sobre o impacto que cada uma delas tem nas nossas decisões. Em simultâneo, concede espaço para que os rostos anónimos, presentes nas entrelinhas, se elevem e assumam os traços que tantos procuram apagar, redescobrindo a sua força. E renascendo para o mundo.

«Ou talvez seja melhor dizer que era uma meia mentira»

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Muito obrigada pelo apoio ♥