(...) «Adão e Eva, num quebranto que lhes envincilhava os membros ágeis, contemplavam de pupila semimorta o trejeito imprevisto dos seres. A nuvem ancorara sobre eles, de todo impedindo de voar para o trono de Deus a sortida perfumaria do Éden. Como cobras sonolentas, os bálsamos rastejavam e envolviam os corpos nus e cândidos de nossos pais.
-- Estamos enredados em hera -- balbuciou a mulher.
-- São cordas de sol que passam pelo arvoredo -- respondeu Adão.
Eva lembrou-se que o Senhor dissera: sereis tentados a comer o pomo proibido pela conjura dos elementos. Teria batido a hora? Palpitou-lhe que sim, mas tolheu-se de advertir Adão. O que fosse, soaria.
Tudo à volta deles era suspeito: aquela languidez; os bichos a arfar; o colapso das rosas; o estado de sideracão do Jardim todo. Na riba encantada da lagoa, a libré vistosa de dois crocodilos palpitava, e, a meio dos bosques, suspiros estranhos feriam o silêncio.
-- Ai, anda-me lume no rosto! -- gemeu Eva.
-- Qual lume! Já te disse, são os incensos que encontram fechada a porta dos céus... -- respondeu Adão.
-- E porque está fechada, homem? -- atreveu-se ela a dizer, quase a descair em revelar-lhe a sua apreensão.
-- Eu sei lá! Pergunta-o ao nosso amo...
A nuvem baixou ainda, até poisar sobre a copa das árvores. Uma luz indecisa banhava o Paraíso.
-- Que nuvem tão carregada! Abafa-me!... Ah! -- lamuriou Eva.
-- Cala-te, é a aeronave em que Deus vem visitar-nos.
As cobras agora enroscavam-se umas nas outras e os pardais espenujavam-se, bicando-se, por entre os ramos floridos. Rolando-se enervada e brincalhona, Eva descaiu sobre nosso pai. E no peito lãzudo dele as narinas de Eva ruflaram. Depois, com meiguice nova, as suas formas cheias roçaram a musculatura seca. Ao mordê-la nos bicos dos seios, proferiu ela em voz quebrada:
-- Rico sabor há-de ter o fruto misterioso do bem e do mal?
-- Porquê?
-- Se não tivesse, não era assim proibido!
Adão suspendeu-se a reflectir. Depois proferiu:
-- Mas não era melhor que nosso amo nos dissesse: o fruto, ei-lo! Agora, amigos, vejam lá no que se metem!
-- Quem sabe lá se uma pessoa se não tentava mais depressa!
-- Tu serias capaz, eu não.
-- Sei lá!
Como estivessem muito próximas, involuntariamente as fontes frescas de suas bocas juntaram-se. E pareceu a qualquer deles que era doce como o mel, um mel inefável. Adão estirou a perna num esticão nervoso; gaiata e a rir como a água nos seixos, nossa mãe apertou-lhe entre as suas, pronunciando:
-- Olha para ali... olha como se enroscam as serpentes...!» ...
(continua)
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 47) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Triunfal»
Literatura, Ficção, Mitologia bíblica, Releitura narrativa
Texto originalmente publicado em Alcança quem não cansa
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