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Jan24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

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(...) «Retirou-se o Padre Eterno para a excelsa morada, no meio da coorte de arcanjos e serafins, à testa da qual fungava uma filarmónica de trombetas e saxofones de oiro, tão afinada e imponente que seria capaz de competir com a charanga do Braço de Pau, que se havia de formar dali a milhões de anos na aldeia turdetana de Vila Cova à Coelheira. Adão e Eva divagando nos Jardins das Delícias, em que as árvores eram andores garridos e pasmados, e as fontes trauteavam minuetes ao espraiarem-se sobre as areias de topázio e sardágata, meditavam: 
  -- Vá lá saber-se que raio de árvore é aquela! Pois não é verdade que se parecem todas umas com as outras e, em matéria de frutos, adeus, minhas encomendas, seria preciso ser pomicultor para acertar?! Nosso bom amo sempre arma cada esparrela à gente!
  -- Assim miraculoso e vedado, muito bom deve ser tal fruto! -- murmurou Eva, relanceando olhos escrutadores aos pomos sazonados, sem grainha e sem bichos, que se lhes ofereciam dos ramos.
  -- Se deve! -- assentiu o homem, abanando a fronte, sombreada de espessa guedelha preta.
Seu enigmático patrão, outro dia que os surpreendeu em consultas ralhadas um com o outro, foi um pouco mais longe:
  -- Nesse fruto, meus meninos, estão açaimados todos os flagelos... ódio, ciúme, angústia... guerra...
  -- Só flagelos, Senhor?
  -- Flagelos... e poucos e mentidos prazeres.
  -- Mas os nossos olhos são de cegos!  -- argumentou Adão. -- Sem querer, podemos faltar às vossas ordens!
  -- Se o meu Senhor lhe pusesse um sinalzinho de alarme... -- observou Eva que era sagaz.
 -- Uma campainha, não? O alarme ser-lhe-á dado por tudo à roda: aves, flores, céu. E não lhes digo mais nada. E, desde então, no intuito de não delinquirem por ignorância, o entendimento deles palpitou por saber qual era o fruto temível e saborosíssimo que encerrava os princípios que frutificavam em angústia e guerra e em raros e falaciosos deleites. Não compreendendo do que se tratava, nem que coisa era tal monstro, experimentavam um respeitável medo. Na verdade infinita do Éden, todos os pomos eram opimos e cometedores. De cada um lhes diziam picanços e vespões, quando se banqueteavam:
  -- Oh que bem que sabe! Provem, provem!
Mas qual fosse o pomo singular, que compreendia tão tremendo laboratório, não atinavam os divinos moradores. E porque não atinassem, o receio de poderem, involuntariamente, trair o amo flutuava em seu cuidado e já enrugava a face lisa do seu mar de doçuras. E, se em corpo e alma permaneciam purinhos sem a menor mácula, começavam a sentir o gume dos dias lavrando sulcos mansos na sua felicidade.» ...
                                                                                    (continua)

publicado às 18:44