
..., nem cobiças, nem necessidades, picavam seus corações inocentes; não admiravam, porque tudo era admirável; júbilos, ternuras, esperanças não sentiam, que Deus gerara a vida, mas ainda não concebera a morte. No céu, sempre azul, o sol trazia o dia, levava o dia, sem que sombras ou raios mais vivos ferissem as suas pupilas bem-aventuradas. Eram uns felizes felizardos cem por cento, usufrutuários dum regalo tão sem balizas que não o sabiam avaliar, mas em que criam de boa fé porque assim lhes fora dito. De beatitude tão absorta, apenas um aviso de Deus os distraía, se a isso se chama distrair, numa punção doce, mais leve que a sombra dum reflexo de cuidado.
-- Gozem, gozem, mas muita cautela, não me toquem na árvore da ciência!... Vejam lá! No dia em que o fizessem, tinha-lhes soado a hora da desgraça... Tu, homem, ias regar a terra com o suor do corpo; e tu, mulher, sérias votada à condição da criatura mais frágil e cativa entre as criaturas.
-- Mas, Senhor -- retorquiu nosso pai, que era um molosso fiel -- nós seremos tão tolos que desrespeitemos as vossas ordens?! Não, meu Senhor, enquanto eu aqui estiver, ninguém toca na tal árvore da ciência.
-- Bonita charada! Pois está bem de ver que ninguém toca -- acudiu Eva, com certo despeito por ser excluída pelo homem do resguardo prometido. -- A questão toda é saber-se qual ela é...
-- É verdade, Senhor, ninguém ergue um dedo para semelhante planta -- tornou nosso pai que era cabeçudo. Mas não seria mau ensinar-nos qual é...
-- Se o dissesse, perdia todo o mérito a vossa observância. Além de que ficavam a saber tanto como eu! A árvore defesa é aquela cujo pomo mais violenta e repentinamente lhes apetecer -- respondeu o Pai Celeste. -- Serão tentados a comê-lo por serpentes, abelhas, aves... a conjura toda dos elementos.
-- Tão gostoso é esse pomo proibido?! -- inquiriu Eva curiosa.
-- Lá gostoso, não digo que não seja. Mas no sumo concentram-se todas as peçonhas. Vocês a darem a primeira dentada e o seio a tornar-se-lhes o ninho infernal dum mundo misterioso e tumultuário. Nem podem imaginar! E eu ver-me-ia obrigado a pô-los no olho da rua. Gozem à farta, mas lá com as minhas recomendações, muito sentido!»...
(continua)