arte/Ligia Zilbersztejn
O conhecimento dos deuses é teu, mas logo verás que não és Deusa, Eva, pois tu, sem espelho, tu, sem-molde, sem-semelhança, tu estás condenada
Isabela Nunes
Ora, Eva era mais astuta que todas as alimárias do campo que o Senhor Deus tinha feito. E eis que Eva fica curiosa. Pois que sente, em seu âmago, que quer Mais. Que todo o Mundo criado por seu Senhor, Mundo este que ela tem liberdade-ignorante para usufruir como quiser, não lhe é suficiente. E eis que Eva sente uma coceira crescendo, gritando, esmurrando as paredes do de dentro de si mesma, saindo pelo olho.
E viu Eva que era bom.
E foi a tarde e a manhã, o dia quarto.
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I., nos braços de Morfeu. A noite sem sons. A Quarta aguarda, cuidadosamente, sobre os olhos fechados da menina que dorme.
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E eis que, na cabeça de Eva, há uma serpente que diz: é o fim deste Mundo, deste Dia; deves tecer teu novo começo. E Eva olha, desafiante, para a árvore no meio do Jardim, a única que lhe é proibida. E Eva lembra do aviso que Deus deu ao Homem, e pensa que não quer esta vida, desse jeito, mas não quer morrer. E a Serpente de sua cabeça lhe diz: é certo que não morrerás; Deus é invejoso e sabe que no dia em que comeres do fruto desta árvore se abrirão os teus olhos, e serás como Ele, sabendo o bem e o mal, e não o olharás mais como Deus. E Eva, que é costela de pó da terra mas não é burra, toma em suas mãos a maçã do ponto mais alto da Árvore e a come.
E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.
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As listras na pálpebra de I. são agora tão finas que, não fosse o olhar atento, poderiam não estar ali. Os olhos fechados se mexem naquele ritmo rápido que indica sonhos intensos. Ela sonha com cobras, e um jardim, e uma maçã.
A Quinta, do canto da cama, observa calmamente o ir e vir da respiração de I.
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E eis que os olhos de Eva se abrem, e o mundo explode em luz. E Eva vê, pela primeira vez, o início e o fim e o meio que se esconde entre eles; e vê a beleza da Vida; e ouve a água corrente dos rios, e os passarinhos cantando, e o vento que risca o céu azul; e o mundo no esclarecimento é infinito e grande e maravilhoso; e não há nada que possa pará-la, não há nada que impedirá sua busca; e Eva sente o Mais pulsando e pulsando e se espalhando pelo corpo como sangue bombeado; e ela é agora dona de si própria e de seu coração cheio de amor e coragem.
E foi a tarde e a manhã, o dia sexto.
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I., da profundeza de seu adormecer, esboça nos lábios um sorriso. Acima do sorriso, na altura dos olhos, descansando sobre eles, está a Sexta. Sua casca verde e áspera ondula e estremece levemente, dando sinais ao mundo de que está prestes a cair. O sibilo da serpente, essa noite, tem o tom de um aviso distante.
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E eis que chega a Deus o conhecimento de que Eva havia ousado contrariá-lo, desobedecendo sua ordem suprema. E Ele, surpreso, manda que Adão traga sua costela até sua Santa Presença.
E pergunta Deus: Por que fizeste isso?
E responde Eva: Pois não queria ser escrava.
E Deus diz a ela, furioso: Pois bem, não serás minha escrava, mas serás escrava de ti mesma. Serás escrava de teus impulsos. Serás escrava de tua ilusão de liberdade. Serás escrava das apoteoses que fizer; todo Homem que tiveres será, para ti, Deus. Serás escrava dos Tu-Deves. Terás a Montanha e a Pedra, Eva, que agora também são tuas, pois o vasto mundo que criei agora és teu, mas tu não imperarás sobre ele, embora o desejes. O conhecimento dos deuses é teu, mas logo verás que não és Deusa, Eva, pois tu, sem espelho, tu, sem-molde, sem-semelhança, tu estás condenada a buscar o espelho e o molde e a semelhança. E por isso serás Escrava de teu espírito pecador que é incapaz de se contentar.
E Eva, amaldiçoada, tomou a palavra de Deus por Verdade, sem saber que, com o conhecimento dos deuses agora dentro de si, para tornar-se Deusa bastava escolher a maçã da Árvore da Vida Eterna. Para que fosse Mais, para que fosse finalmente igual ao seu Criador, bastava estender a mão. Mas Eva a fecha, punhos fechados, e passa pelos portões do Éden, que nunca voltará a ver, em direção ao escuro da Noite.
E foi a tarde e a manhã, o dia sétimo; e viu Deus, descansando em seu posto de Rei Uno, que tudo quanto tinha feito era mesmo muito bom. E declarou Ele que o sétimo dia seria para sempre santificado, pois marcava o início da supremacia de Nosso Senhor e a maldição eterna daquela que o desafiou.
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Seis cobras de pele nova estão empoleiradas na cabeceira da cama de I., esperando seu despertar. Há seis sibilos em uníssono preenchendo a noite. Os olhos de I., ecdisificados, sem nenhuma secura, nenhuma listra, nenhuma marca, se abrem sem susto. Ela se levanta e se põe de pé, calma. Serpenteando até ela, vão as cobras.
A Primeira sobe até seus cabelos.
A Segunda cobre o braço direito.
A Terceira se enrosca sobre o esquerdo.
A Quarta envolve a coxa de uma das pernas.
A Quinta desenha o tornozelo da outra.
A Sexta começa sua escalada nos dedos do pé esquerdo, sobe pelo joelho, pela coxa, pela cintura, pelo abdôme, pelos seios, pela clavícula, e para no pescoço. A Sexta, a Última, espera, sibilante. Espera o aviso das outras, o aviso de I.
I. estende os dedos até o interruptor. O quarto inunda-se de luz.
A Última se esgueira por sobre seu pescoço, envolvendo-o, apertando-o. I. anda até o espelho para ver-se por inteira. Para ver todas as serpentes dançando sobre si.
A Última deixa sair um último sibilo antes de abocanhar a própria cauda. No reflexo à sua frente, I. vê um novo colar pendendo sobre o peito daquela que a olha de volta.
E é tudo muito bom.
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— A alergia do olho voltou.
— É? Quer o bepantol?
— Quero.
— Toma. Boa noite, I. Porta fechada ou aberta?
—Fechada. Boa noite, J.
(…)
— J.?
— Quê?
— Apaga a luz?