Fotografia da minha autoria

Tema: Livros passados num lugar que queremos conhecer

A mochila está pousada na soleira da porta. E a chave da Pão de Forma balança entre os meus dedos. Por mais que o cenário descrito seja apenas hipotético, é esta possibilidade, esta capacidade de abrir as portas da imaginação, que me atrai na leitura. Porque viajo muito pelas palavras que dançam no meu regaço, quando folheio um livro e desligo dos estímulos exteriores. Portanto, não podia ter ficado mais entusiasmada com o tema de novembro para o The Bibliophile Club, que me levou a deambular por uma região que me está colada na pele - o Alentejo - e por tantos outros locais que quero muito conhecer.

Não se Encontra o que se Procura alterna narrativas, memórias, viagens e entradas de diário, transmitindo a pluralidade que reveste a nossa vida. Num dialeto que é tão próprio de Miguel Sousa Tavares, sinto que o traço de contador de histórias, para além de evidente, é de uma inspiração inigualável, uma vez que, com um olhar atento e com uma linguagem quase poética [ainda que simples] -, transporta-nos para os contextos que pretende destacar, mesmo que nos sejam desconhecidos. É, naturalmente, este lado proximal que apaixona, que nos desarma e que nos permite levitar. E o que mais me fascina nas suas partilhas é a ausência de falsas modéstias. É o desembaraço. E a descomplicação. E é, em simultâneo, o lado emocional e emotivo que associa a cada transição. Porque a bagagem vem cheia e consegue transmitir cada sensação. Cada cheiro. Cada toque. Cada vivência. E isso só é concretizável quando se escreve com o coração na ponta da caneta.

A vista fora do seu quarto traça uma rota muito especial, pois passamos pelo «seu mundo mediterrâneo», pelo Sul de Portugal, pela Croácia, por Roma, pela Sicília e pelo Brasil, que é palco das lembranças mais belas e ternas em relação à sua mãe. Este vínculo tão genuíno desperta um enorme sentido de pertença, como se estivéssemos em casa. E uma particularidade que considero maravilhosa é o facto de o autor não se focar só na História, no Património dos lugares em questão: ele agarra-se às emoções, à essência, à alma de todos eles. No fundo, absorve cada detalhe, desde o mais turístico até ao mais familiar, ao mais intimista. Sendo uma obra dividida por zonas e por estações, aprendemos que há um lema transversal: «viajar é olhar».

No mesmo plano, abre-se espaço para dissertar sobre figuras históricas, razão pela qual não atribui cinco estrelas ao livro, pois senti que estes capítulos em concreto ficaram um pouco desconexos. Apesar disso, e mesmo sem concordar com todos os seus pontos de vista, fico fascinada com a forma como observa o mundo, como analisa acontecimentos específicos. A liberdade associada ao seu pensamento, às suas divagações, sem ter a pretensão de examinar clinicamente a paisagem, prioriza algo mais profundo, mostrando ainda a sua rebeldia, a sua postura e o que lhe corre no sangue: o escrever pelo «prazer de contar». Assim, oscila entre um tom mais mordaz e irónico e uma expressividade sincera e tranquila. Para além do mais, não existe somente uma viagem física, pois há uma descoberta interior, que o faz refletir sobre todo o processo - e motivação - de escrita.

Esta obra apresenta uma alma vulnerável. E eu senti a urgência, o amor, o elo, a desordem e a vida que nela habita. Senti o peso de cada passo. E foi impossível ficar indiferente ao segmento «Escrever». Porque, embora de um modo mais modesto, também vivo das palavras que alimentam e que estabelecem pontes com quem nos lê. No final, compreendi que nem sempre encontramos o que procuramos, porque podemos não saber o que procurar ou, pelo contrário, podemos descobrir outras rotas que se revelam mais indicadas ao nosso percurso - e consequente crescimento. Usufruindo do privilégio profissional que levou Miguel Sousa Tavares a muitos lugares, temos a honra de apanhar boleia da sua imaginação, chegando aos locais menos visíveis da sua mente.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Eu quero escrever, escrever, escrever. Quero sentar-me no meu terraço durante o dia e ficar a ver as aves que passam, o vento que corre, o tempo que desliza» [p:11];

«Gostaria que o tempo também pudesse ficar assim para sempre, como a água parada e silenciosa do Alqueva. Há alturas em que eu sei que, se nada for dito, nada se estragará» [p:76];

«Arrasto-me para melhor antecipar o instante mágico em que a voltarei a ver no alto da sua montanha, descendo em degraus sucessivos de branco até ao mar azul irreal a seus pés» [p:117];

«As pessoas podem passar ou morrer, "mas outros amarão as coisas que foram minhas", como deixou escrito, para nos ensinar, quem mais amou esta casa» [p:163];

«Sei que, quando estiver longe e nostálgico, quando estiver triste ou descrente, vou fechar os olhos e imaginar que estou outra vez a planar sobre este mar de espuma, esta ferida líquida aberta ao meio da selva, cuja beleza é tão excessiva que exige uma jura de amor eterna, quase um compromisso de honra» [p:210]

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥