13

Mar24

Elsa Filipe

Este é um dos livros de Miguel Sousa Tavares. O livro tem como subtítulo "Quase Romance" e remete-nos para uma viagem ao passado, a uma viagem feita atravás do Sahara que, mais do que nos dar a conhecer alguns aspetos do deserto, nos dá uma perspetiva do "eu" interior, da visão que a personagem principal tem da sua companheira no início da viagem e de como essa imagem se vai alterando ao longo do tempo. Neste livro encontramos uma perspetiva diferente da vida e da construção de uma amizade.

A partir de uma fotografia antiga, o autor recorda Cláudia e as memórias que com ela construiu durante uma viagem única, ao deserto do Sahara. Nessa viagem, além da descrição do espaço e da aventura que envolve um percurso desta natureza e complexidade, passa especialmente pela viagem interior e pela reflexão sobre o amor e a amizade, sobre o eu interior do narrador e sobre a forma como vê os outros.

Aqui entra em confronto a visão do fotógrafo, que busca o melhor enquadramento e não quer perder nenhuma imagem, e a visão humana de quem observa o deserto e os seus acontecimentos. No início desta viagem, o autor escreve sobre as artimanhas para ultrapassar as barreiras burocráticas e como o dinheiro é a chave que vai abrindo todas as portas (ou quase todas).

Mas o ponto principal da história é a relação entre o narrador e Cláudia (que também acaba por assumir em alguns momentos o papel de narradora, dando uma perspetiva diferente dos mesmos assuntos). Uma relação entre duas pessoas que são desconhecidas e que apenas vão viajar juntas. Duas pessoas muito diferentes e com objetivos de vida diferentes. E sabemos logo na primeira página que o desfecho de Cláudia será fatal.

Um livro que vindo deste jornalista não me surpreendeu e do qual gostei bastante. Um livro que se lê muito rapidamente, com uma escrita fluida e sem descrições desnecessárias, em que o essencial está lá.

Uma das passagens que eu mais gostei foi esta:

"- Escrever não é falar.

- Não? Qual é a diferença?

- É exatamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer."

Logo na partida, começam as peripécias e ambos acabam por viajar por Argel, enquanto o restante grupo segue direto por Marrocos. O intuito é arranjar uma licença para poder transportar consigo e usaar todo o equipamento fotográfico, mas logo aí começam os percalços. Os dois companheiros de viagem, talvez pela sua diferença de idades, talvez pela maneira de ser de cada um, vêem cada peripécia de uma perspetiva diferente e, apesar de tudo, a viagem lá se vai concretizando. Durante o caminho, além de conhecerem o deserto, criam uma forte amizade que se vai consolidando, mais do através das palavras, através dos silêncios enquanto se vão tornando uma equipa.

«Ali estavas tu, então, tão nova que parecias irreal, tão feliz que era quase impossível de imaginar. Ali estavas tu, exactamente como te tinha conhecido. E o que era extraordinário é que, olhando-te, dei-me conta de que não tinhas mudado nada, nestes vinte anos: como nunca mais te vi, ficaste assim para sempre, com aquela idade, com aquela felicidade, suspensa, eterna, desde o instante em que te apontei a minha Nikon e tu ficaste exposta, sem defesa, sem segredos, sem dissimulação alguma.»

A minha opinião pessoal? Um livro que vale a pena ler e que nos agarra da primeira à última página.