Fotografia da minha autoria

Tema: Um livro passado num sítio que não conheces

A arte de idealizar o desconhecido implica-nos por inteiro. E revela-se um exercício surpreendente para estimular a nossa imaginação. A literatura é, possivelmente, uma das melhores ferramentas para o efeito, até porque nos permite deambular por distintos contextos, cenários e realidades. E é inegável o quanto viajamos através das palavras - confortando-nos quando não nos é possível sair do lugar. Portanto, assim que verifiquei o tema de junho para Uma Dúzia de Livros, pensei num destino que me fizesse sentido. E parti à aventura.

Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai transporta-nos para Berlim e para a alma de personagens peculiares. Embora surjam por acaso, todas têm um propósito e aprofundam a energia da obra, reforçando o impacto das relações interpessoais e da individualidade do nosso caminho. A vaguear pelas ruas da cidade, a subir até ao Antiquário, a visitar o Arquivo ou dentro do Hotel cujos nomes dos quartos correspondem a campos de concentração, há uma infinidade de detalhes que nos inquieta e que nos alerta para a importância de confiarmos nos outros - mas até que ponto conhecemos a sua verdadeira essência? Além disso, cada passo interfere com as nossas emoções, fragilidades e certezas, desconstruindo preconceitos, questionando os nossos valores e incitando-nos a olhar para dentro de nós.

O meu contacto com a escrita de Gonçalo M. Tavares era mínimo. Li, há vários anos, Uma Viagem à Índia e fiquei sempre com a sensação de que tem uma maneira muito própria de se expressar. E comprovei isso mesmo com esta narrativa. A certa altura, quase que nos sentimos desorientados, confusos, à deriva, como se a história tivesse perdido o seu fio condutor. Porém, para mim, essa é a magia do livro. Porque lhe confere uma autenticidade singular. Porque, apropriando-se de uma linguagem metafísica, leva-nos a compreender que cada desenlace é o ponto de partida para algo mais complexo. As aparentes pontas soltas não deixam, então, de ser intencionais. E foi a partir desta desconstrução literária que me envolvi em pleno no enredo.

Uma Menina Está Perdida no Seu Século à Procura do Pai aborda a questão da diferença, da deficiência intelectual/física [Hanna tem Trissomia 21], do abandono, do legado das memórias, do tempo e da Europa desfragmentada após a Segunda Guerra Mundial. E privilegia uma dicotomia transversal a toda a ação: a fuga vs a procura. Numa busca incessante por sentido - ou por alguém -, todos nós acabamos por estar perdidos no mundo. E enquanto tentamos descobrir modelos de resistência, movemo-nos no meio de ruínas internas e externas. É isso que acalenta o nosso traço humano. E a escrita do autor funde-nos nesta urgência, fortalecendo a certeza de que caminha ao nosso lado. 

Neste romance, Gonçalo M. Tavares semeia mais questões do que respostas, convidando-nos a abraçar vários tipos de dor e a refletir sobre quem queremos ser. Pela primeira vez, senti que o desfecho não era assim tão importante, uma vez que são as pequenas histórias que conhecemos no decorrer desta travessia que nos desarmam, inspiram e nos orientam para um lugar seguro. Talvez fiquemos em suspenso, mas não há rotas fechadas. Com um final intenso, cheio de adrenalina, há um apontamento de vulnerabilidade, que nos obriga a estar longe da nossa zona de conforto. Afinal, andamos uma vida inteira a fugir de algo e à procura da nossa identidade. E não estamos sós.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«(...) alguém abandonara uma menina deficiente na rua movimentada da cidade, com uma caixa de fichas, dezenas e dezenas de fichas com passos, exercícios, objetivos» [p:13];

«A planta do hotel era, mais milímetro, menos milímetro, uma cópia da estrutura geométrica formada pelos pontos que no mapa assinalavam os Campos. E exactamente na mesma posição relativa de cada Campo estava o quarto com o mesmo nome» [p:77];

«Se estivermos carregados, vamos de um ponto ao outro pelo caminho mais curto ou cómodo. Temos um destino. Aí, na nossa cabeça, não existem cruzamentos (...) Fico contente de saber que, para si, pelo contrário, as cidades ainda têm cruzamentos» [p:141].

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥