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Tema: Livros para superar medos
O medo é um mundo. E não deixa de ser um mecanismo de defesa, perante mudanças que nos retiram da nossa zona de conforto. Este estado emocional ativa todos os nossos sentidos de consciência, porque nos predispõe a antever o perigo e a analisar a ameaça - seja ela real ou hipotética. Nem sempre somos capazes de desconstruir os nossos receios, pois há traços irracionais incontroláveis. Ainda assim, existe sempre maneira de nos libertarmos dos nossos fantasmas. E uma delas é através da literatura. Portanto, para o tema deste mês do The Bibliophile Club, selecionei uma obra que expõe vários dos meus.
Demência, de Célia Correia Loureiro, é uma leitura forte, que nos inquieta e que nos revolta. E alguns capítulos chegam mesmo a magoar, pois é um retrato cru da doença e da violência que marcam mais vidas do que aquelas que seriam expectáveis. Além disso, o contexto em que se desenvolve tem um peso muito significativo na abordagem e na mentalidade perante certos acontecimentos. «Numa pequena aldeia beirã, duas mulheres de gerações diferentes leem o seu destino nas mãos de um mesmo homem», sendo fascinante - mas, igualmente, assustador - perceber como é que as pessoas são tão diferentes consoante aqueles com quem interagem. Este assumir de identidades múltiplas incomoda-me e faz-me sentir desconfortável, até porque nunca sabemos o que esperar e como agir. E a dúvida permanente desgasta-nos. E enlouquece-nos.
A autora, com uma enorme sensibilidade, conseguiu colocar em evidência o traço vulnerável, isolador e descredibilizador com que a mulher ainda é vista e tratada, camuflando-se esta postura na tradição e «nos bons costumes». Em simultâneo, foca questões como a hipocrisia, a cultura de ódio, a reprodução de comportamentos, a vida precária e a justiça em praça pública, onde o povo consegue ser inflexível e cruel. Em parte, sou capaz de compreender as motivações - não a cegueira voluntária -, porque é difícil acreditar que alguém por quem temos uma profunda consideração possa ser um autêntico monstro. No entanto, entristece-me a avidez com que se julga, não se concedendo uma oportunidade de explicação. Eu cresci com a certeza de que qualquer história tem, no mínimo, duas partes. E tirar conclusões quando só conhecemos uma delas é perigoso. Porque nos condiciona e porque nos aproxima de interpretações erradas. E pior do que criarmos uma imagem distorcida de uma pessoa, é fazê-lo pela opinião de terceiros.
Numa alternância equilibrada entre o passado e o presente, há uma verdade que parecem querer ignorar. Há trauma, maldizer, agressão e reconstrução de memórias. E há uma doença silenciosa, que chega sem aviso, embora seja percetível em pequenos sinais. E é, precisamente, esta sensação de descontrolo, que nos priva de quem somos, que me deixa apreensiva em relação ao futuro. É como se o nosso corpo e a nossa alma se separassem e as peças perdessem a sua forma de encaixe. Além do mais, não é apenas o impacto individual que me amedronta, é também as consequências no quotidiano - e no peito - de quem me é próximo. Por isso, não podia concordar mais com a ideia de que Demência nos permite «repensar o significado de família e de comunidade». No mesmo compasso, faz-nos refletir sobre inocência e culpa. E na quantidade de vezes que nos limitamos a ponderar os factos e nunca os motivos. Nesta narrativa, é quase palpável a condenação, porém, uma das maiores aprendizagens prende-se com o seguinte pensamento: a partir do momento em que a nossa consciência está limpa, paramos de insistir na justificação de quem somos. Claramente, há pessoas que já escolheram a sua versão dos factos, logo, só temos que nos manter fiéis à nossa essência, evitando despender energias para provar aquilo que não estão, à partida, dispostos a aceitar.
A qualidade da obra é sublime, desde os cenários às personagens bem construídas. Aliás, é um texto tão verdadeiro, que conseguimos sentir tudo: a raiva, o ódio, o medo, mas também o apreço, uma vez que, nas entrelinhas, descobrimos uma mensagem de força, resiliência e estoicismo. Enquanto leitora, senti falta de mais Olímpia, da demência, porque a saúde mental é um tema delicado, mas essencial. E é uma voz que não podemos calar. Apesar disso, o trabalho de sucessiva consciencialização é soberbo. E a história é viciante, fabulosa e com uma escrita que nos transporta para o centro do que é descrito, fazendo uma análise do próprio «abandono social, cultural e, inclusive, intelectual das aldeias». Com um cariz veemente, explora preconceitos e confronta-nos com a ameaça, a intimidação, o abuso de poder. Mesmo assim, não deixa de acalentar a nossa fé. O nosso sentido de honra e de lealdade. E a capacidade de colocarmos o orgulho de parte, sendo colo de quem mais precisa - ainda que não o reconheça.
Demência é uma história de coragem. De sobrevivência. De recomeços. De amor. E arrebata-nos pelas infinitas emoções que coabitam no mesmo plano de ação. Parece-me difícil, após concluí-la, ter superado os medos que me apoquentam, mas sinto que me permitiu reunir novas ferramentas de combate. Porque até nos maiores períodos de ostracização há uma luz - sobretudo, interior - a guiar-nos.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«- Não sei se quero ficar aqui - disse Letícia, tateando na escuridão até encontrar o braço de Luz, trazendo-a então para mais perto. As duas irmãs, abraçadas, buscaram calor no corpo estendido da mãe. - Mas, de momento, não temos outro lugar para onde ir» [p:24];
«- Cravos vermelhos.
Tudo o que ansiava, na altura, era pelo sabor a liberdade» [p:210];
«Pilar também apertou os lábios, já com os olhos brilhantes, e soltou-lhe os braços. Esboçou um sorriso cansado, como se também ela tivesse caminhado até à exaustão naquela estrada com Letícia e Gabriel, e a professora entendeu que era possível que tivessem começado a acreditar» [p:310].
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