Conheço muito pouco do que se faz de nona arte em Portugal.
Foi, portanto, de espírito muito aberto que me debrucei sobre Os Regressos, de Pedro Moura e Marta Teives, livro que diria que li na altura do ano ideal - meados de Agosto. Ao contrário de Madalena, a protagonista do livro, fui nascida e criada na cidade, mas com uma infância de romaria anual (bi-anual, na verdade) a uma aldeia típica - onde todos se conhecem, que fica a uma muito longa viagem de distância do local de residência.
O nosso primeiro encontro com Madalena, a protagonista, é na longa viagem de comboio que a levará à terra onde cresceu, criada pela avó que sabe que não irá mais encontrar. Na casa, vazia, é inundada por memórias agridoces, que dão subtilmente a entender que algo está errado (detalhes que convidam muito a uma releitura!).
É neste meio bucólico e lento, onde Madalena diz que vai "para descansar", que a vemos a passar por um processo que parece, inicialmente, de luto pela avó - mas que tem raízes mais profundas. Os reencontros com os amigos de infância acabam por desenterrar memórias menos felizes e, assim, o regresso à terra da avó traz também o regresso de outras presenças da vida de Madalena.
Os Regressos toca de forma subtil e sensível em temas de doença mental, sendo que deixa ambiguidade suficiente para não ser 100% perceptível se se trata de doença mental ou de uma história de fantasia. Fala da incompreensão e isolamento de quem é percepcionado como diferente, e de como é difícil mantermo-nos à tona quando perdemos o chão.
4/5
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