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| Fotografia da minha autoria |
Tema: A mulher na literatura
Possíveis gatilhos: Saúde Mental, Luto
As memórias são janelas abertas, que nos mostram os nossos passos. E são o baú que continua a acolher a nossa história. Porém, tal como o tempo, também preservam fragmentos turvos, quase indecifráveis, porque, devido a acasos e reviravoltas, as peças nem sempre encaixam na perfeição. Ainda assim, talvez seja essa a magia do nosso crescimento, pois aprimoramos a capacidade de interpretar tudo aquilo que nos envolve. Portanto, sem ter a certeza que «podemos contar verdadeiramente quem somos», aventurei-me na obra de Marlene Ferraz.
«Sabes quanto pesa uma borboleta, pai?
O homem floreiro pareceu muito certo.
Mais do que a alma, menos do que a fome»
As Falsas Memórias de Manoel Luz alterna entre dois planos - flores e livros -, permanecendo interligados por um tom poético que marca toda a narrativa. Além disso, faz uma clara alusão à história de Portugal, numa transição do Estado Novo para a Liberdade. E é neste enlaço que somos confrontados com segredos, ilusões, dicotomias, silêncios e dúvidas, tão próprios de quem vai construindo a sua identidade e gerindo o turbilhão de emoções que florescem num peito inquieto e desejoso de ser grande. Só que o nosso discernimento nem sempre privilegia a postura mais correta, porque nos deslumbramos e criamos ideais frágeis, que nos fazem ruir - para, depois, sermos borboleta.
«Manoel poderia ter começado a chorar pelo desencanto
que se ampliava por dentro, mas continuou seco na vista»
Há tanto mundo nas páginas deste livro, que somos, facilmente, transportados para o seu enredo, sentindo-o como se fossemos uma das suas personagens. Por isso, fui desarmada pela ingenuidade, pela afeição, pela desonestidade, pela mágoa e por todo o amor que foi sendo escrito nas entrelinhas e nos detalhes que transparecem proteção e cuidado. E foi com uma agradável surpresa que me senti a ser guiada por Fernando Pessoa, fomentando pensamentos e contextos. Nesta obra, que transita entre o passado e o presente, assistimos à complexidade humana e às múltiplas camadas que norteiam os nossos sentimentos.
«O amor é que, para ampliar-se, precisa que sejamos mais simples»
A história é feita de inúmeros traços marcantes. No entanto, tenho de destacar a fragilidade emocional, a desconstrução da racionalidade e a importância da família e de estarmos rodeados de pessoas que respeitem o nosso tempo, o nosso espaço e as nossas quebras, sem imposições. Por consequência, compreendemos que existe uma descoberta interior profunda, aceitando o imprevisível, o desconhecido e a loucura. E é por essa razão que este exemplar nos apaixona: porque, com delicadeza, explora universos internos e sociais que nos levam a repensar a definição do bem e do mal, visto que não é uma questão tão linear.
«Ao homem floreiro incomodou mais o verbo da negociação do que a frivolidade do comentário»
As Falsas Memórias de Manoel Luz faz-nos deambular pelos vários tipos de amor, no mesmo compasso em que nos ensina a necessidade de convivermos com quem nos amplie. Porque ser alto é ser lúcido e humilde. Apesar de nos tendermos a esquecer, a altura vem de dentro.
«Seria um nó atado para sempre»
//Disponibilidade//
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