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Dez23
I - Jardim das Tormentas. 1913
Manuel Pinto
(...) «Muito tempo levaram naquele entretenimento até que, feito o ramo, sem dar por isso, se viram à borda da água, à flor da qual o velho Sátiro não acabava seu gozo. Descia a noite, e os ralos, vendo os quintalinhos em sossego, vinham à porta e cantavam. Uns respondiam aos outros, e vale e monte encheram-se de vozes, sonoras como matinas de monges. Os grilos sacudiram os élitros de ébano e oiro, um rouxinol suspirou, recolheu-se, tornou a suspirar, e despediu uma trova tão suave, que se molhava primeiro de céu para depois irrorar a terra. E o coro da noite elevou-se em mil acentos joviais e magoados e, nele, mesmo as rãs do rios e os sapos eram melodiosos.
Mafalda e Gil sentaram-se à beira da vasca de água rendidos à agradável fresquidão e arraial do crepúsculo. A lua ergueu-se, subiu até à altura dos peitos, e eles ali. A ambos penetrava igualmente o mistério da vida, com princípio e fim, emoções e transes improfundáveis. Mas não sendo simples, não sabiam parte no amoroso enternecimento dos seres. Parecia-lhes que eram infinitamente pequenos e, sentindo nisso dor e na dor deleite, tinham necessidade duma resignação que os levasse para longe deles. Mas nem o que queriam, nem a natureza daquele sentimento sabiam precisar.
Entretanto, das bandas de Leste, começou a soprar uma aragem maneirinha, e a música dos insectos abrandou, e mudou-se a feição da noite e o sabor que havia no ar. O concerto mudo começou para os seres que não cantavam, em voz alta, as suas efusões. Era a orgia enrodilhada dos hálitos vegetais, o beijo imanente do ser no ser, que começara. O pé de vento trazia a serra ao vale em noivado. Desceu, primeiro, a sensualidade ligeira da verbena e o travor da flor das giestas. Depois, veio vindo ao de leve o aroma dos rosmaninhos, da bela-luz, da borragem, da erva-maria, das urzes, e o mole langor dos sargaços. Tudo isto baixou ao pomar inundando as madressilvas, as camélias, os gerânios dos canteiros que, muito castigados do sol, com efusão se desagravavam agora na levada nocturna do sereno. Regaladamente, na faina eterna de zomba e de gozo, o sátiro era como um super-homem, acima do universo visível.» ...
(continua)
publicado às 18:14