(...) «No serão da Ambrósia, entre outras moças louçãs, pousavam as Amadas. Ia para dois meses que haviam rompido com Isaac, a isso obrigadas por juramento público e formal, uma vez que o padre Claro lhes fora surpreender o tio, de gorra com os filhos, a saquear-lhe a arca das ceveiras. Em má hora voltou ele a aproximar-se: o Amado, que conservava uns restos de palavra, ergueu o sacho em ameaça e o estouvado desistiu. Mas como lhe faltasse fêmea, cansava-se a suspirar, lamentando que a gravidez, que Maria lhe anunciara, não existisse realmente, visto desse modo a ter segura. Como era mocetona forte e sadia, outros lhe andavam na cola e, ao que se rosnava, com intentos de casar.
Em voz sonora de homem bem comido e bebido, ao fadinho que chorava entre os dedos sujos do tocador, Isaac cantou:
        Porque a teus olhos daria
        Deus assim uma sorte...
        Ao desafio com a morte, 
        Matam eles mais, Maria.
E, dlim-dlim, dlim-dlão, na pausa que se seguiu perpassou a vénia dos cantadores ao fidalguinho e a bisbilhotice cochichada das mulheres. E todas as caras se voltaram mofinas ou curiosas para a Maria Amada, que metera olhos confusos no chão. Mais alta e ardente, Isaac atirou segunda trova, perto do Norberto que, soturno, o espiava:
        São negras -- bo'é de dizer, 
        As penas das andorinhas, 
        Com a negrura das minhas
        Não se podem elas par'cer!
O Zé Mirlitão retrucou-lhe com cantiga da sua lavra, a puxá-lo ao desafio. Isaac correu à roda, e lá foi na cadeia girante saltando de par em par, sem erguer o repto do cantador.
Um dançarino -- picava na viola a Caninha Verde ribaldia -- deitou mão à Maria Amada.
  -- Deixe-me! -- exclamou e, como se a apoquentasse mágoa, apartou-se para o canto a fiar.
Norberto volteava com Adelina e, contente da sua sorte, esquecia-se de vigiar o irmão. O Fado de Anadia forneceu pretexto à moída letra:
        Ó D. Carlos de Bragança, 
        Filho de D. Luís primeiro,
        Paga a honra que roubaste
        À filha do jardineiro.
Eram mais de dez dançarinos bate que bate, e um por mais pimpão pôs-se a apará-lo com grande espalhafato e meliantaria. Armou-se depois a chula e a grande roda virou e tornou a virar. Outra vez, defronte de Maria Amada, a voz cariciosa de Isaac garganteou:
        Fiandeira, ruim hora
        Em que te fiei meu carinho;
        Enquanto fias no linho,
        Meu coração em fio chora.
E, desta feita, a moça suspirou, um suspiro que lhe fez tremer o seio forte e alevantado. E Isaac, que tal viu, dali em diante desvairou de alegria.
Na penumbra, Adelina deixava-se palpar por Norberto e isso fazia-lhe esquecer todas as juras da terra.
Era já tarde quando o descante desarvorou, e Norberto que não dera fé de o irmão se sumir, entrou sozinho em casa. Ia cheio de Adelina, dos beijos que lhe pudera furtar, e o fogo que se ateou nele impedia-o de dormir.»
                                                   (continua)

Ceveiras — cereais, rações de cavalgaduras ou para «cevar» porcos.
Cola — peugada, rasto.