
... Os fregueses avantaram para o Corneta, que tinha sempre sorrisos a dar, e que, ao medir o azeite, roubava com tanta arte que ainda lhe ficavam agradecidos. A família pôs-se também de candeia às avessas com ele, de maneira que, desolada, Rosária não cessava de carpir-se:
-- Ai, homem, que nunca havemos de pôr pé em ramo verde!
Mas o Isidro trabalhava como um moiro; ainda mal não tinha carregado na cidade, já os machos faziam romaria pelas aldeias, vendendo a grosso e a retalho, conforme caía a jeito. Assim, à fina força, a vida havia de endireitar.
Quando veio a Semana Santa, Rosária, que todos os anos crivava o joio da alma nos ralos do confessionário, apresentou-se muito lépida à desobriga. Ajoelhou-se embuçada, mas o senhor padre Claro fez-lhe sinal para que viesse falar-lhe de parte.
-- Rosária -- disse ele -- não te posso receber em confissão.
-- Porquê, senhor Reitor?
-- Porque vives de cama e mesa com teu cunhado. Olha, minha rica, precisas duma bula da Santa Cruzada e renegá-lo, sabes tu? A bula pouco é, um pinto, até eu ta dou. Quanto ao mais... está na tua mão...
Ela deu por paus e por pedras:
-- Renegá-lo? Renegar mas é o Porco-Sujo que tenta as almas. O fidalgo das Rãs também vive com a cunhada.
-- Não faças comparações com quem é mais que vós. Há uma saída: casardes. Verdade seja, para a dispensa não chegam os bens que tendes... Sim, é negócio puxado... Não sei mesmo se é superior às vossas posses.
-- Superior às nossas posses...?
-- Sim, se vendendo o que tendes, ainda faltava dinheiro. Vocês malham as suas trinta pousadas? Não era de mais.» ...
(continua)
O significado da expressão «pôr pé em ramo verde»