(...) «Lá foi para a igreja, depois de ordenhar a cabra. Quando chegou a sua vez, escondeu a cara na capucha, fiada em que o padre a não reconhecesse. Mas com que rês estava metida!? O padre matou-a logo pelo meneio e, levantando-se do confessionário, a modos que lhe disse:
-- Saia, saia daqui!
A pobre ficou tão atarantada que nem artes teve de navegar. Ali ficava como uma estátua. O padre agarrou-a por um braço, e pô-la fora da igreja pela porta travessa. Rosária foi-se para casa com grandes gritarias que, à-d'el-rei, Isidro era o causador da sua desgraça, que o seu regalo seria deitar-se a um poço, esconder-se debaixo do cisco onde ninguém a visse!
O Isidro tão desatinado se viu que botou a carga aos machos e abalou. Pelo povo não ia outro falatório.
À noite, quando voltou, Rosária tinha os olhos pisados de chorar. Na cama, sem poder pregar olho, estiveram muito tempo deitando contas à vida. Ela disse:
-- Desconfio que ando grávida.
-- Mau é isso. Assim a crescer o rebanho só se formos pedir esmola.
-- Homem, não me queziles. A graça de Deus é grande!
-- Atém-te à Virgem e não corras! Olha que todo o nosso mal vem dos padres.
-- Que queres?... A razão está do lado deles! Nós não temos dinheiro...
-- O único a quem se deve favor é ao padre Claro. Podia fazer escândula e chamou-te às boas.
-- É verdade. Carda o paroquiano o mais que pode, mas tem isto de bom: não faz mal a uma mosca.
-- E homem de vulto, Rosária! Agora, vê lá tu, o filho saiu um mariolão, sempre metido com fêmeas, por feiras e romarias! Mal o pai cerre o olho, há-de espatifar, enquanto se abre uma mão e se fecha, tudo o que ele ganhou a poder de muito sermão e de muita missa cantada!
Calaram-se e ela, que era meiguiceira, enrolou-o nos braços. E na quieta noite adormeceram com a consolação de se verem duas almas numa alma só.»...
(continua)
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Escândula — razão de queixa, ofensa.