Man Reading Newspaper, NYC, 1982 // Photo: © Jay Maise Matheus Lopes Quirino A foto acima, batida por Jay Maise na década de 1980, é um verdadeiro respiro. Um senhor de terno escuro, chapéu de feltro, recostado em uma viga metálica lendo seu jornal, ao que tudo indica no final da tarde. A elegância é uma coisa atemporal, felizmente, diferente do jornal que ele lê com tamanho zelo. Jornais são feitos para embrulhar peixe, dizem os que ali não estão, fazendo o beabá da coisa. De longe, algum desavisado poderia presumir ser o senhor Drummond, o poeta mineiro, pela face comprimida e os óculos grossos escuros. Bem poderia sê-lo, por todo o conjunto, não dosse um certo despojamento ao se colocar assim, desnudo sob a lente do fotógrafo, em plena rua, em pleno coração do mundo. “Caderno do crítico”, esta coluna, a partir de hoje inaugurada nesta revista, será uma tentativa de enquadrar o mundo além da selfie, do textão e da atmosfera hypada com glitter do Instagram. O Glamour, esse remédio sempre bem-vindo, creio, morreu e foi sepultado já faz algum tempo. Décadas, talvez. Hoje, existe apenas alguma poeira contaminada daquilo que foi. É brega, piegas, bem. É impressioante como uma foto consegue imortalizar o espírito de uma época, quando como líamos jornal de papel recostados em vigas de metal nas ruas, por acaso em NY. Nesta coluna, além dos fragmentos ordinários pinçados do cotidiano (a veia crônica é indissociável), haverá também a indicação de algum livro, comentário rápido, e uma imagem icônica, ou mesmo uma pintura. A viagem (parte 1) São dias quentes que embalam a insônia. De manhã, o céu abre a porteira para o verão, mesmo ainda inverno, se converte em um balneário com azuis muito costeiros, quase como se os pássaros fossem conchinhas a voar. Do outro lado da sacada, camuflada de uns plátanos, uma xícara de porcelana repousa sob os jornais de domingo, sinal de desleixo e preguiça, enquanto um anúncio interrompe o som da brisa de terça-feira, levantando já cansada. É Misty, de Erroll Garner.Por trás da cortina se escuta o gorjear dos pássaros, à revelia dos horários de voo rotineiros. Estão com calor e rumam, sabe-se lá para onde, para que tal um balneário. A janela aberta é fechada para o gato não pular. Não é equilibrista, apenas um felino de pelo escaminha. O televisor sintoniza na última parada de um desfile sem graça, uma espécie de carnaval requentado. As tardes do feriado não são engraçadas, mornas com o aspecto mortuário de um país que morre sufocado na própria desgraça.Embora a vista da sacada não seja das piores, o ar seco da estação travestida de verão faz o nariz coçar, sangrando um pouquinho. Estirado no sofá, mexo os pés para cima, tentando lembrar do trecho de uma musica que lembra um outro verão, que não esse temporal transformista do inverno mormaço.Os cuidados com o Rinossoro são um reflexo rápido da condição que venho suportando. Rinítico, espirro um tanto por causa da poeira e fecho as persianas para impedir o sol de tocar nos jornais desbotados de outras semanas. continua… livro da semana Ainda que a melancolia atravesse os séculos, sendo matéria para gerações de escritores de prosa e verso, autores contemporâneos têm trabalhado com o tema inevitável. Muitas histórias sobre a psiquê podem embalar mentes atormentadas, e uma delas é Uma Tristeza Infinita, novo livro de Antônio Xerxenesky, ambientado em um gelado vilarejo suíço, cujo cenário lembra muito o descrito por Thomas Mann, em A Montanha Mágica. É pela vida de Nicolas, um psiquiatra do pós-segunda-guerra, que o leitor se surpreende com o cotidiano de uma clínica para doentes mentais, que traz de volta o debate a melancolia. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino