Sou fascinado pela filosofia de Walter Benjamin, que trata, dentre outras coisas, dos elementos culturais que explicam a ascensão do fascismo e o eterno retorno deste. Moro no Brasil dos anos 2020 — esses assuntos não envelheceram um só dia. Talvez olhar para o passado possa ser iluminador na hora de voltar a refletir sobre nosso presente brasileiro”; comenta Xerxenesky à Fina
Por Giovana Proença
Um psiquiatra hipocondríaco. Este é Nicolas, o protagonista de Uma tristeza infinita, mais recente romance de Antônio Xerxenesky. Em um momento em que grande parte da produção literária brasileira se dedica a esquadrinhar as problemáticas nacionais em suas obras, Xerxenesky vai na contramão. Enquanto uns usam do cenário brasileiro atual para expor angústias universais, o autor parte da Europa pós Segunda Guerra mundial para investigar o mal de todos os séculos: a tristeza.
A trama acompanha a história de Nicolas e Anna, casal francês composto por um psiquiatra e uma jornalista, que se refugia em uma pequena vila suíça, na qual ele trabalha em um centro de tratamento psiquiátrico humanizado, que ressoa os métodos da psicanálise freudiana. “A base do livro, que existia desde sempre, era a seguinte: pensar no conflito entre os limites da ciência e tudo que está além da ciência, ou que a ciência nunca poderá explicar” comenta Xerxenesky à Fina.
Uma tristeza infinita é ambientado em um pequeno vilarejo suíço, cuja beleza é bem captada pelas descrições do narrador. Ainda assim, a principal sensação que ronda o cenário é o isolamento. Xerxenesky, que nesta entrevista se revela um admirador dos escritores alemães, assemelha sua obra ao exílio construído por grandes nomes da língua germânica como Thomas Mann e Franz Kafka.
Além do lugar, o tempo – e em especial, o tempo histórico do romance – merece destaque. Estamos no pós Segunda Guerra Mundial, período em que os destroços do nazifascismo ainda se espalham pela Europa. “Talvez olhar para o passado possa ser iluminador na hora de voltar a refletir sobre nosso presente brasileiro.” reflete Xernenesky sobre o Zeitgeist, termo do romantismo alemão para o espírito unficador de um tempo, que ronda Uma tristeza infinita.
Apesar da aura idílica da Suíça, local onde Xerxenesky participou de uma residência literária da Foundation Jan Michalski, estamos diante de um realismo cru, diferente de produções anteriores de Xerxenesky, que se diz cansado da literatura fantástica. Como leitores, nós vencemos. Ganhamos uma obra que toca, com louvores, o tabu da saúde mental. Vence também a literatura brasileira, que ganha mais uma peça singular.
Revista Fina: Uma tristeza infinita começou a ser escrito na residência literária da Foundation Jan Michalski. Como foi esse processo?
Antônio Xerxenesky: Como 99% dos escritores brasileiros, não ganho a vida com a literatura, mas trabalhando com outras coisas, às vezes em empregos fixos, inclusive. Assim, as residências literárias são ótimas opções para conseguir viver um mês ou mais sem se preocupar com nada além da escrita de ficção, como se fôssemos autores chiques e elegantes. Quando fui para a Suíça, não planejava escrever nada que se passasse lá, mas em São Paulo, onde moro há 10 anos. No entanto, é uma ilusão achar que estamos no controle de nossa própria criatividade.
De que maneira o ambiente suíço ressoou para você?
A Suíça é linda e tranquila. Fiquei hospedado ao lado de um bosque verdejante, e vi neve pela primeira vez na vida. Para quem está acostumado com a mata atlântica do sudeste brasileiro, aquele era um território alienígena que me encantou. Especialmente, repito, pela tranquilidade. Sair de São Paulo para um vilarejo de 900 habitantes foi chocante. Eu sofria com as agruras de um transtorno de ansiedade muito severo quando viajei para lá e encontrei uma paz restauradora no ambiente suíço. Essa experiência pessoal acabou ditando muitos dos rumos da minha escrita.
Da onde surgiu a ideia para o livro?
A base do livro, que existia desde sempre, era a seguinte: pensar no conflito entre os limites da ciência e tudo que está além da ciência, ou que a ciência nunca poderá explicar — por que estamos aqui, por que estamos vivos e não mortos, o sentido da existência. Originalmente, eu tramava uma história de vampiros (!) situada em São Paulo, mas pouco a pouco notei que estava de saco cheio de tramas fantásticas e decidi me render à experiência suíça que mencionei acima. Aí descobri as revoluções psiquiátricas ocorridas no pós-guerra que passaram a questionar os limites entre cérebro e mente, e as coisas passaram a se encaixar, ideias díspares encontraram pontos de contato etc.
Como foi tocar em uma questão tão espinhosa – embora não devesse ser – como a saúde mental?
Moro em São Paulo. Entre a minha geração de classe média, parece que a saúde mental é um tema inescapável; quase todo mundo já passou por uma avaliação psiquiátrica, já fez ou faz análise etc. Conversar sobre remédios ansiolíticos é atividade corrente. Para mim, portanto, nunca foi tabu. E eu acho que se deve falar cada vez mais disso, especialmente de tudo que foge das raias do farmacológico – ou seja, da maneira como o nosso contexto sócio-histórico pesa na nossa saúde mental e tudo que fazemos além de engolir comprimidos para lidar com depressão e ansiedade.
Você considera que há um deslocamento na sua escrita, com relação às obras anteriores, como, por exemplo, F?
Sim, sem dúvida. Como disse, cansei um pouco de literatura fantástica, inclusive como leitor. Alguns desvarios narrativos que cometi no passado me parecem juvenis. Tem seu espaço, é claro, mas não me identifico mais com a escrita que eu praticava na época do “F” (que comecei a redigir em 2012, quando eu era outra pessoa). Tenho 37 anos, um filho, e muitos problemas e conflitos diferentes do que há 10 anos. Minhas leituras mudaram. Minha escrita mudou.
Quais são suas principais influências literárias?
No momento, eu diria que é a turma cabeçuda de língua alemã – Hermann Broch, Robert Musil, Thomas Bernhard… Embora minhas leituras cotidianas sejam muito mais diversificadas. Acompanho de perto a literatura brasileira e estou deslumbrado com publicações recentes de colegas como Jeferson Tenório e Natércia Pontes, mesmo que os temas e o estilo deles sejam tão diferentes dos meus.
Como foi para você reconstituir no romance o espírito da Europa pós guerra?
Isso surgiu muito organicamente. Eu já tinha lido dezenas de livros sobre Segunda Guerra Mundial, pois o tópico sempre me interessou. E sou fascinado pela filosofia de Walter Benjamin, que trata, dentre outras coisas, dos elementos culturais que explicam a ascensão do fascismo e o eterno retorno deste. Moro no Brasil dos anos 2020 — esses assuntos não envelheceram um só dia. Talvez olhar para o passado possa ser iluminador na hora de voltar a refletir sobre nosso presente brasileiro.
Que mensagem você gostaria de deixar aos leitores do Brasil de hoje?
Se você gosta de livros, se a cultura significa algo para você, por favor, em outubro vote em um candidato que valorize a cultura. Do contrário, vamos continuar ouvindo que livro é coisa de elite, o “objeto livro” vai se tornar cada vez mais caro, as bibliotecas e universidades cada vez mais escassas, e o livro vai, de fato, virar coisa só da elite. É dever de todo leitor do Brasil lutar para que isso não aconteça.