Romance 

Uma tristeza infinita – Antônio Xerxenesky – Companhia das Letras

Ainda que a melancolia atravesse os séculos, sendo matéria para gerações de escritores de prosa e verso, autores contemporâneos têm trabalhado com o tema inevitável. Muitas histórias sobre a psiquê podem embalar mentes atormentadas, e uma delas é Uma Tristeza Infinita, novo livro de Antônio Xerxenesky, ambientado em um gelado vilarejo suíço, cujo cenário lembra muito o descrito por Thomas Mann, em A Montanha Mágica. É pela vida de Nicolas, um psiquiatra do pós-segunda-guerra, que o leitor se surpreende com o cotidiano de uma clínica para doentes mentais, que traz de volta o debate a melancolia. (Matheus Lopes Quirino) 

Crônica 

Os sabiás da crônica – F. Sabino, R. Braga, S. Porto, P. M. Campos, J. C Oliveira, V. Moraes – Org. Augusto Massi – Autêntica 

A editora Sabiá, cuja foto de divulgação da editora, datada do verão de 1967, ilustra a antologia Os Sabiás da Crônica, ganhou força e credibilidade pela amizade entre os cronistas da época. Dentre eles, Fernando Sabino e Rubem Braga apostaram nas gerações que publicavam em jornais e revistas, como Sérgio Porto, Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos e José Carlos Oliveira. Na sessão, devidamente engravatados, não demora para se notar nas fotos que acompanham o volume a descontração do grupo boêmio que vai desabotoando paletós e tirando os sapatos sob as lentes do experiente Paulo Garcez, outrora editor de imagem d’O Pasquim, com vasto currículo como retratista, hoje nonagenário. Sob a edição de Maria Amélia Mello e organização de Augusto Massi, o volume traz seis dos mais importantes escribas da imprensa carioca. (M.L.Q)

Biografia

Guignard Anjo Mutilado – Marcelo Bortoloti – Companhia das Letras 

Não é exagero dizer que Anjo Mutilado, epíteto atribuído a Alberto da Veiga Guignard por Manuel Bandeira faz justiça tardia ao pintor. Tendo em vida atingido a glória já de cabelos brancos, a trajetória do homem que trafegou entre o luxo e a miséria humana sempre com ingenuidade ganha contornos profundos, a partir de análises do comportamento da figura por amigos, admiradores e especialistas, atestando, como no livro é muito sustentado, que Guignard era um velho-menino, sugere o jornalista mineiro Marcelo Bortoloti. (M.L.Q)

Poesia

As 29 poetas hoje – Heloisa Buarque de Hollanda – Companhia das Letras

Quarenta e cinco anos depois da antologia que abalou os pilares da literatura nacional, Heloisa organiza agora, pela Companhia das Letras, As 29 poetas hoje – com ênfase no artigo, em tempos de discussões sobre gênero e língua. É a hora e a vez da poesia feminina, advinda em meio ao furacão do feminismo panfletado virtualmente, em hashtags como o #MeToo e acessórios que estampam as sobrancelhas da artista mexicana Frida Khalo. A edição acerta em cheio em captar essa atmosfera em termos líricos. O lançamento acompanha a reedição de 26 poetas hoje, em formato livro de bolso, disponibilizando de modo compacto o retrato poético de uma geração. (Giovana Proença) 

Contos – Thomas Mann – Companhia das Letras 

Além de consagrar obras como A Montanha Mágica e Morte em Veneza, subverter o clássico em Doutor Fausto e colocar Tonio Kröger entre as mais célebres personagens da literatura, Thomas Mann foi, primeiro, um contista. A obra do autor na forma breve se apresenta multifacetada, transita entre as inovações modernistas e a beleza da narrativa tradicional, em edição da Companhia das Letras, que traz a obra do Prêmio Nobel de 1929 aos brasileiros que desejam ter contato com um dos mais eruditos gênios literários modernos.  (G.P)

Fábula

A história do Senhor Sommer – Patrick Süskind – Editora 34 

Clássico de Süskind, a fábula do senhor Sommer volta em edição caprichada pela editora 34, com as ilustrações de Jean-Jacques Sempé, célebre cartunista francês que se notabilizou por seus quadrinhos delicados e profundos, retratando a vida urbana e as suas sensações de forma inteligente. Süskind e Sempé são velhos amigos, o livro é apenas mais um dos trabalhos da dupla. À primeira vista ingênuo, a obra ganha força em leituras seguintes e complementares, o traço infante de Sempé transporta a prosa de Süskind para uma dimensão filosofia e idílica, regressando com o leitor à infância, aos tantos dilemas vividos e as primeiras vezes de cada um. (M.L.Q) 

Romance 

A ponte no nevoeiro – Chico Lopes – Laranja Original 

Incrustada no calorento interior de São Paulo, a fictícia Verdor abriga personagens tão insignificantes quanto a própria localização da cidade. Ao passo que estão paradas no tempo, elas refletem uma realidade que até hoje pouco muda quando se compara com o mundo real: o fracasso dos intelectuais no interior. Ambientado nos anos 1990, A Ponte no Nevoeiro, terceiro romance do poeta radicado em Poços de Caldas, Chico Lopes retrata a vida de jovens fadados ao provincianismo. (M.L.Q)

Literatura portuguesa 

A visão das plantas – Djaimilia Pereira de Almeida – Todavia

Ao cravar que “a aflição era uma estrela a cruzar o céu, sem que a ideia de morte chegasse a ser uma ideia”, a escritora Djaimilia Pereira de Almeida, vencedora do prêmio Oceanos 2019 por Lunda, Lisboa e Paraíso, toca na questão central de seu novo livro, justamente a aflição projetada como um astro sublime, intocável e majestoso. A estrela, como signo celestial que remete à transcendência, é também  algo que bate de frente com a aflição terrena que assombra o capitão Celestino, protagonista da fábula A Visão das Plantas. (M.L.Q)

Romance

Copo Vazio – Natalia Timerman – Todavia

A fórmula é familiar aos que se aventuram nos relacionamentos modernos. O like no aplicativo é a abertura para a troca de mensagens As conversas digitadas levam ao encontro. Depois, muitas vezes, o silêncio. A alcunha ganhou o nome de ghosting e se popularizou nos caracteres do Twitter, vitrine do vocabulário das redes sociais. Contudo, na trama de Copo Vazio, primeiro romance de Natalia Timerman, há mais nuances entre o match e o rompimento do romance de Mirela, a protagonista, e Pedro, o fantasma da narrativa. Temos, então, um tratado sobre o amor nos tempos de Tinder. (G.P)

Ensaios

By Heart e Outros Textos – Tiago Rodrigues – Editora 34

By Heart e Outros Textos, lançamento da editora 34, é a primeira coleção de obras  de Rodrigues publicada no Brasil. Como é bem apresentado no posfácio e nas notas da edição, o trabalho do encenador tem um sentido do teatro como assembleia, de diferentes vozes que constituem um sentido, e na sua concepção seus espetáculos mobilizam simultaneamente diferentes tempos e registros. O cânone, e a história do teatro, da encenação, se encontram com uma velocidade que é das notícias, que promove interrupções, reflexões, atravessamentos- encontros que surgem de trombadas inesperadas. (Bruno Pernambuco)

HQ

Escuta, Formosa Márcia – Marcello Quintanilha – Veneta 

Um relato de três gerações de mulheres- uma das quais ainda está por aparecer para o mundo- constrói a narrativa de Escuta, Formosa Márcia, novo livro de Marcello Quintanilha publicado pela Editora Veneta. Jaqueline, filha da protagonista homônima da musa que inspira a marchinha de carnaval de onde é tirado o título da obra, é o fio condutor que leva da história íntima, de uma cisão familiar, até um retrato cheio de ação da criminalidade nos morros do Rio de Janeiro, das relações escusas e íntimas da polícia dentro do tráfico, e da forma como, mesmo que amortizados e escondidos, os sonhos e os desejos das pessoas comuns continuam a viver sob a guerra que se impõe. (B. P) 

Arte

O Nervo Óptico – María Gainza – Todavia

O livro da escritora e crítica de arte apresenta uma série de textos que refletem o impacto direto, inevitável e, frequentemente, violento que a obra de arte provoca em nossas vidas. Muitas vezes, os episódios expostos adquirem um tom ensaístico. Outras, um modo de narrar bastante lírico. Quase sempre, as pinturas citadas e descritas de forma instigante possuem uma profunda conexão com acontecimentos do passado da autora – aqui, o livro se torna autobiográfico. Ao mesmo tempo, os quadros são situados em uma linha do tempo muito mais ampla: os relatos adquirem cunho histórico, pintados entre guerras e traumas. Ao fim, Gainza transforma suas páginas nos corredores de um museu ou de uma  galeria de arte. (Laura Pilan)