Vivian Maier © 1954, New York/reprodução

Um ambiente verdadeiramente democrático, a banca de nornal atraía gente de todo tipo, credo, cor, gênero e raça

Matheus Lopes Quirino

Uma espécie em extinção. Este é o jornaleiro, cá na segunda década do século 21. Aquele que, para uns, era o guardião das últimas novidades, em matéria de figurinhas, gibis, fascículos, livros de bolso e revistas de sacanagem, hoje definhou e segura as pontas vendendo tabaco cool, pois o normal pode se comprar até na padaria. A banca de jornal, este templo démodé, é (ou era) o reduto dos melhores tipos de transeuntes, aqueles que procuravam uma literatura barata para poder passar o tempo sem muito perrengue.

A banca de jornal era a verdadeira democracia. Crianças atrás de álbuns de figurinhas, fumantes pedindo o pior tabaco, ciclistas que paravam pra comprar garrafinhas d’água, adolescentes camuflados debaixo de chapéus estranhos e óculos escuros atrás de um exemplar de Playboy, velhinhos querendo o jornal de esporte, ou o popular, e dondocas que liam a Vogue em papel. Era essa a banca que existia e, de lambuja, dava troco em bala de hortelã.

Os tempos já não estão tão frescos assim, para hortelãs ou menta. A banca está às moscas. Jornal de papel, diário, só um público de cabelos brancos e uns hipsters disputam um exemplar caríssimo (de domingo, sete conto, rapaz). Jornal também já teve lá as suas graças. Revistas? Finíssimas, claro, não propositalmente como esta publicação. Realmente esquálidas e com conteúdo duvidoso – e não é a intenção, muito pelo contrário.

O jornaleiro, esse sobrevivente da idade do papel, do efêmero que nem era tão efêmero assim, pois as salas de dentista e consultórios oftalmológicos sempre abrigavam exemplares de Caras, Contigo, Cláudia, Vogue e Harper’s Bazaar.

Ainda há exceções, claro, simpáticas bancas que souberam se reinventar, como a Banca Tatuí, por exemplo, especialista em publicações alternativas, diferentonas, Underground. Outra perto dali, no coração de SP, é a banca Higienópolis, no bairro endinheirado, com publicações de ponta, direto da gringa. Na Paulista, as bancas ainda vendem boas revistas importadas, raridades como Esquire e New Yorker. Exceções de uma capital cosmopolita. No interior, por exemplo, às vezes uma banca concentra todo o material possível de impressos no centro da cidade, a preços mais salgados. São os últimos bastiões do self-service de Gutemberg. Guardiões de um mundo nem tão antigo, mas já considerado arcaico.

Livro da semana

Encaixotando minha biblioteca – Alberto Manguel – Companhia das Letras – 184 p.p

Recentemente empossado como diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Alberto Manguel há tempos trabalha com a temática dos livros na literatura. Aqui no Brasil, A Biblioteca à Noite e Os Livros e os Dias são alguns dos títulos que se tornaram clássicos do autor, ensaísta prolífico e crítico literário. Em Encaixotando Minha Biblioteca, Manguel proseia com o leitor acerca de suas raridades, títulos essenciais e fala dos processos de mudança da França para Nova York, para Buenos Aires, cidade onde cresceu e foi fisgado pelos livros, comparando o passado com o presente. É uma ode ao ato de, sobretudo, colecionar boas histórias.

Indicações de leitura

No TAB, um texto de minha autoria sobre o obituarista, a última pá de cal no jornalismo

“Sem futuro”, jornaleiro mais antigo se despede da profissão, também no TAB

O bar, inimigo da família brasileira, por Marcos Nogueira, na Folha

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Publicado por Matheus Lopes Quirino

Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino