(...) «Aquele episódio fugitivo sugeriu ao garrano caduco a sua mocidade longínqua. E, apercebendo-se do desejo impetuoso dos cavalos e da arisca e arrebatada luxúria das éguas, num relincho disse ao grotesco e heróico potro do moleiro:
-- Aí, aí, seu valente, aí! A velhaca está a arder!
E, em voz rápida, o outro respondeu:
-- Lá vamos, meu velho, lá vamos!
Chegou ao cimo do teso, pensativo e melancólico.
Contra uma lage o filho do Cleto aguçava uma faca. E o garrano que estava ressentido com ele arreganhou os dentes, ameaçador. O rapaz, com um safanão que se perdeu no ar, repeliu-o.
O Cleto prendeu-o a um carvalhaliço, depois do que lhe vendou os olhos com o lenço. E outra vez fez o seu reparo:
-- Mas que endróminas são estas?!
De repente sentiu um beliscão desagradável no pescoço e uma queimadura, estreita como chicotada, que lhe apanhava a garupa de lés a lés e se perdia por debaixo da pele. E pouco a pouco começou a achar-se leve, leve, como se um pé de vento fosse capaz de o rebalsar pelo espaço num galão vertiginoso. Ao mesmo tempo, por detrás do farrapo vermelho, os seus olhos pareciam ver com diversa claridade. Ah, lá em cima, a poldra e o cavalo mordiam-se num abraço grandioso. Também fora pimpão e chibante, e a dentada com que ferrava as éguas pelo cachaço tão raivosa era de cio que elas tremiam abanadas como um canavial. Desabava sobre elas com a rapidez do nebri, e recordou-se... Uma vez rebentara a retranca para saltar na égua aluada dum passageiro que o provocava da argola da taverna com gemidos langorosos. Outra vez fugira para a serra mais a potra do mestre ferrador, com meio mundo à cola: Aqui vão as pegadas! Rincharam além! Arreta, aqueiba! Quando os pilharam, tanto ela como ele, saciados, ripavam placidamente a ervinha duma fonte.
Na cernelha a torrente lépida lembrava um afago da mão de Joana, que nunca lhe fizera mal. E sentia-se bem, inundado dum gozo desconhecido, quando lhe faleceram as forças e baqueou. Uma vez em terra, através da venda ofereceu-se-lhe um horizonte imprevisto, mais diáfano e arroxeado que certas púrpuras do Poente para os lados do mar. Tinha vontade de dormir. Oh, como o chão era macio! Qualquer coisa parecida com a asa dum passarinho ou o primeiro arrebol do dia roçava-lhe a pelagem, suave, suavemente.
Joana ergueu-lhe o lenço dos olhos e por hábito novamente beijou a mão cujas meigueices há pouco vinham temperadas de tristeza. O ar, diante dele, era menos que um sopro que não basta para encher os bofes uma vez. Ao longe, para lá dos montes, avistou um corpo afogueado que descia. E vagamente interrogou-se:
-- Será o sol?
Depois, lembrado da poldra e do garanhão que galopavam para as núpcias ferozes, considerou:
-- É o amor dos cavalos.
No horizonte, a grande rosa caiu arrastando o ar todo. E às escuras se engolfou no escuro nada.» ...
(continua)
Nebri — ave de altanaria, falcão.
Rinchar — relinchar, guinchar.
Aqueibar — cortar o caminho à rês esparvada. saindo-lhe pela frente.
arrebol
n substantivo masculino
1 cor avermelhada do crepúsculo
2 Derivação: por metonímia.
a hora em que o sol está surgindo ou sumindo no horizonte
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"