(...)«Por ordem de el-rei, uma força partiu a bater as serranias do Norte, que os bandidos infestavam, e onde se presumia guardassem em reféns o mui nobre e leal senhor D. Beltrão.
Era ponto de fé que longa e engenhosa traça, com o fim de roubar e matar, explorando a soberbia do fidalgo, fora aquela dos cavalos que corriam mais que o vento. Se ele era a única vítima, a grande milagre deviam Floripes e o morgado a salvação. À pequena valera-lhe enfiar o cavalo por um tremedal, e ao noivo ser cuspido da sela, embora a troco de duas costelas partidas. Ela chorava, o morgado ria, agradecendo aos santos ter escapado a tais alhadas, comendo agora as boas alheiras dos seus cerdos, temperadas a verdasco de Santo Tirso, oferta congratulatória do abade da freguesia.
Ignorava-se, de todo, a sorte de D. Beltrão, posto corressem rumores de que, roubando-lhe a liberdade, lhe houvessem poupado a vida e terem-no de conserva a engordar como um peru que havia de dar para os gastos da consoada.
Floripes chorava noite e dia, agastando-se sem repouso a espreitar o horizonte por onde os soldados podiam voltar dum momento para o outro, mas não voltavam, com o paizinho resgatado. Ao cabo de largo mês, só o alferes apareceu, crivado de dardos, tendo perdido metade da gente em peleja com os bandidos.
Ficou el-rei muito em cólera com a notícia do desastre e, por sua ordem, depois de um conselho de ministros a que foi chamado a dar seu parecer o proto-alveitar D. Hyacintho Ferreira, que metia nas Pandectas o mesmo nariz sábio com que especulava a madre das éguas reais, segunda e bem equipada expedição se organizou. Estava esta para abalar quando, em ardido galope, se apresentou um moço imberbe e de elegante parecer por baixo do uniforme da ordem: -- Eis a minha guia de marcha.
O alferes, reparando na bela afoiteza do adolescente, interrogou admirativo:
-- Soldado raso?
-- Porque não?
-- Pensaste bem nos trabalhos que vais ter?
-- Não olho a isso; sou tropa como os mais.
O alferes, depois de ler a guia, tornou:
-- Mas porque te alistas tu, rapaz, numa expedição donde não vem glória e só riscos?
-- É segredo, meu alferes.
Partiram. O soldadinho era dos mais animosos na marcha, embora fosse de parecer melancólico e reservado. Mas as suas finas maneiras de pronto cativaram a soldadesca e não menos o alferes, que o escolheu para ordenança.» ... (continua)
https://books.google.pt/books?id=Vo44AQAAMAAJ&printsec=frontcover&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false
*****************************************************************************************************************
https://jornal.usp.br/cultura/professores-da-usp-editam-o-pandectas-de-justiniano/
Professores da USP editam o “Pandectas”, de Justiniano
Maior obra jurídica do imperador bizantino é lançada pela primeira vez em língua portuguesa

O Pandectas, de Justiniano, em língua portuguesa: no total, obra terá sete volumes – Foto: Reprodução
«O governo do imperador Justiniano (482-565), que comandou o chamado Império Romano do Oriente por 38 anos – desde 527 até sua morte –, foi marcado por grandes realizações e por iniciativas típicas de um déspota intransigente. Se, por um lado, abafou com mão de ferro revoltas como a de Nike, instituiu pesados impostos nas terras sob seu domínio, baniu o Talmude das sinagogas e, em 529, fechou a Academia de Platão, em Atenas, por outro lado, ele levou às maiores alturas a glória do Império Bizantino, com sede em Constantinopla – hoje Istambul, na Turquia –, expandiu o seu território por todo o Mediterrâneo e, na tentativa de preservar os costumes e tradições do outrora onipotente Império Romano dos césares, legou ao mundo um documento jurídico que está na base do direito civil das nações ocidentais: o Pandectas ou Digesto.
Esse documento é uma compilação do direito romano elaborada por uma comissão de 17 juristas instituída por Justiniano. Durante três anos, essa comissão analisou 2 mil livros, para deles extrair comentários de juristas romanos sobre direito civil – como os celebrados Ulpiano (150-223) e Paulo (180-235) –, feitos ao longo de 1.300 anos. O trabalho resultou em 50 livros na versão final, que foram reunidos sob o nome de Pandectas ou Digesto e promulgados por Justiniano no dia 16 de dezembro de 533. Em vigor por quase mil anos em Constantinopla – até a tomada da cidade pelos turcos, em 1453 –, essa obra influencia o direito ocidental até hoje. No Brasil, ela é a base de aproximadamente 4/5 do Código Civil, de 2002.»
Digesto ou Pandectas, do imperador Justiniano, volumes I, II e III, tradução de Manoel da Cunha Lopes e Vasconcellos, Editora YK.