14

Jan24

I - Jardim das Tormentas. 1913

Manuel Pinto

(...) «Floripes saltou sobre a sela, como um pássaro salta para um ramo. O homem disse, assentando uma palmada na garupa do seu morzelo: 
  - Este é o mais maneirinho dos três; tem a graciosa andadura duma dama da corte de Trebizonda, e corre como o vento dos ciclones. Chama-se Tigre. Se lhe agrada, custa-lhe dois mil cruzados... dois mil cruzados e o mais que se verá...
  -- O mais que se verá... quê?
  -- A carta do rei Ordonho com o seu alvará de fidalgo... mesmo que esteja roída dos ratos... Sou coleccionador.
Sorriu o nobre da bravata, por lhe parecer amenidade de vilão cobiçar-lhe o pergaminho mandado lavrar e assinado pelo punho de el-rei e de sua senhora D. Cunegundes Coração de Leoa, e Floripes e o cavaleiro emparelharam, prontos a despedir.
Observou-lhe o desconhecido:
  -- Menina, vergonha terei em vencê-la...
  -- Ora essa! Vergonha tenho eu, montada no meu cavalo, de não me considerar uma amazona capaz de correr com o senhor cavaleiro.
  -- Seja.
Os cavalos abalaram e Azagaia foi batido por dois galões.
  -- Entendido -- respondeu D. Beltrão -- terá os dois mil cruzados e uma boa gorjeta para os pajens. Corra agora os outros cavalos com Azagaia.
Os palafreneiros apresentaram o segundo cavalo e o cavaleiro declarou:
  -- Pus-lhe o nome Relâmpago, porque mal arranca desaparece. É tão valente e tão dócil que se deixa montar por um abade com a ama à frente, dois afilhados na garupa e os alforges carregados com os folares da Páscoa. Também é mais caro... dois mil cruzados... e o paço.
O fidalgo reprimiu uma injúria ante a graça descortês, e os ginetes partiram. Segunda vez perdeu Azagaia por quase um quarto de pista.
  -- São extraordinários os seus cavalos, não haja dúvida. O senhor não lhes deu por aí alguma mistela mágica a beber?
  -- Água da fonte e um cálice de vinho fino. Os meus cavalos têm paladar como um lorde de Inglaterra.
  -- Vê-lo-emos. Este terceiro, pachorento como um rocim, não tem ar de defrontar o meu...
  -- Pois deixe repousar o seu cavalinho. Este alazão tem manhas de palafrém, baixa-se para um menino montar, e não há nada mais galgaz. É o que lhe digo... voa como o pensamento e dá pelo nome de Vingança...
  -- Lindo nome! -- gracejou Floripes.
  -- Lindo; e que amor! Traga trinta léguas dum ímpeto e o passo dele é mais macio que andar de liteira levada aos ombros de quatro galegos de Redondela. Precisa, porém, de trato fidalgo e vinho; este bebe como um rei de armas.» ...
                                                                                                                                                 (continua)

publicado às 19:02