A estrada vai se construindo sem muito o que dizer, na esperança dos viajantes se encontrarem, ela mesma burla os caminhos, move montanhas Affonso Duprat Se a vida fosse um enunciado, não ousaria dizer seu nome. Nem o meu. Para tudo se bancar imaginativo, como naqueles mapas antigos que vão se traçando pelas mãos do destino, cujo X, marcado, é o encontro perfeito. Sabido, vencido, apesar de todas as dificuldades e distâncias, fincar a bandeira, correr nos seus braços e dizer: cheguei. Dizer sem dizer assim, só um sorriso meio dado e umas pastilhas de menta emboladas num plástico fácil. Assim, sem menos, mãos dadas e o sol raiando ao fundo, uma música aveludadinha saindo de não se sabe onde. Não adianta correr ou dizer ‘já chego’, diz seu nome. Eu queria ter um mapa bonito para traçar, um que me levasse para todos os caminhos sem se preocupar com passagem ou terreno. Seguir seus passos não importassem as pegadas deixadas e encobertas pelo tempo. Você traçaria lago como um jogo rústico, como se, bobinho fosse, eu me perdesse em rodamoinhos para ser surpreendido pela sua presença no meio do nada. Eu olho para trás a todo instante na esperança de ver alguma peça do quebra-cabeça, reencontrar uma ampulheta ou qualquer coisa que me diga: vai ali. Te espero como a rocha, paciente, a ouvir o cantar do pássaro em sobrevoo, com um ninho quentinho por fazer, como se as ondas lambessem as crateras do tempo para afagar a dor. Eu ando para encontrar as palavras que ajudam a construir frases meio tortas, que tentam dizer sobre nós, sobre ser assim, assado. Caio, de repente, num espanto e vejo sua silhueta ao longe. À noite, nos sonhos, tento te encontrar e tento te encontrar em algum lugar perto da Avenida Paulista. Chove baixinho como num daqueles domingos elípticos de outras temporadas: eu olhava você, você olhava, como dois pontos se cruzando em compasso. Piscamos e era um passo de dança para fazer e riscar o chão. Era eu a te encontrar antes de dar adeus, temporário coadjuvante do destino. O mapa se fechou provisoriamente, mas as traças continuaram traçando caminho, como se a diferença de depois aberto não fosse em vão. Fosse sabida já, avisada pelo tempo como quem dá um telefonema curto. Ele vai te encontrar, dizia a cigana no sonho. E tomava um ônibus prateado debaixo de um nevoeiro. Eu comprei as passagens para Buenos Aires, na esperança de te ver no terminal. Quando você chegou, ainda faltavam uns cinco minutos e eu me despedi. Você e eu fomos sem um destino fixo, uma surpresa assim, quase de supetão, de encontro ao incomum, na esperança de se resolver no trecho e comprar louças antigas para nossa nova casa.