O trem chega. Você caminha pela plataforma. Pessoas caminham pela plataforma. Uma delas chama a sua atenção, mas ela se perderá ao entrar no outro segmento do trem.

Dias, ou semanas, ou meses, ou anos depois, vocês voltam a se cruzar na mesma estação. Desta vez, dividirão o carro e talvez seus olhares se encontrem, mas a viagem dela não terá o mesmo destino que a sua, ela descerá antes que você possa perceber.

Na próxima oportunidade, ela terá sentado mais perto, você vai descobrir seu cheiro, seu modo de sorrir, talvez até escute seu nome, enquanto a pessoa que entrou com ela lhe vota palavras de amor, indiferença ou ódio.

Virá a vez em que ela estará muito próxima, mas será você a criatura absorta em pensamentos gerados por outra criatura, ali presente ou mesmo distante.

À espada da sorte (ou do azar), vocês dois, um dia, sentarão lado a lado. E haverá um reconhecimento, quem sabe um acidente, os dois corpos postos em rota de colisão. E vocês se farão companhia. E a natureza desamparada dos viajantes solitários estará suspensa. E então haverá a leveza das conversas novas. Quem sabe suas pernas discretamente se toquem, e depois as mãos. Para além, estará a cabine em que vocês, isolados do mundo, flutuarão até o fim da viagem.

Nós, esses passageiros.

A vida, uma viagem de inúmeras paradas e baldeações. Em nosso vagão há conhecidos, amigos, as pessoas que amamos, enquanto nós também podemos estar em seus vagões, até que os caminhos se bifurquem. No meio disto, os encontros amorosos, aleatórias intersecções que, racionali- zadas, teriam a feição absurda daquele conto do Cortázar, “Manuscrito encontrado em um bolso”, em que um homem segue transições programadas no metrô de Paris a m de encontrar o amor de sua vida.

Não há transições programadas.

Em um momento, chegamos cedo; noutro, tarde demais à plataforma. Noutra vez, experimentamos a simpatia de um olhar que se perderá ao desembarque. Depois, somos aqueles prontos para tentar quando o outro está fechado, depois fechados quando o outro está aberto às tentativas. Por fim, somos os que se encontram, esses que por um momento descobriram a felicidade, semelhante a um descarrilamento, afortunadamente esquecidos de quão minúsculos são sempre os destinos naqueles mapas afixados nas paredes das estações.

E mais uma vez uma teoria. Ou palpite, não, teoria, pois lembro de testá-la na realidade, tanto a partir de meus desencontros como dos daqueles a quem também a expus. Contudo, por uma questão de fé, desconfiado do empirismo, sempre vou à literatura em busca de contraprovas. Entre inúmeros exemplos, além do já citado conto do Cortázar, me encanta uma cena em Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que Brás volta a encontrar Virgília, agora casada com seu rival Lobo Neves, sendo que o mesmo Brás tivera a chance de se casar com ela antes, o que não ocorreu porque não houvera entre eles qualquer tipo de atração. Por que, anos depois, sentiam-se compelidos um ao outro? Assim o explica o defunto-autor: A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor: distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos.