Matheus Lopes Quirino Eu descobri o que era bonito assim que vi a sua fotografia num canto da parede. Como ela parara ali, por tanto tempo, sem desbotar ou esparramar pelo chão? Ser apanhada pelo vento, comida por traça, roída por rato? Era uma polaroid flutuando, escondida entre os vãos das tábuas lixadas. Há quanto tempo estava ali? Desde 1994, talvez? Apanhei aquela fotografia e coloquei no bolso interior do casaco, como se o coração começasse a pulsar, frenético, a duas camadas de pele entre a blusa e seu retrato. Eu cheguei a te colocar em um livro, dentro de uma caixa de sapatos, no meio de um calendário de papel de supermercado para te proteger da chuva. Era assim nos meus dias de espera, com a luz da noite entrando pela janela, comigo debaixo da fresta, torcendo os olhos para ver uma última vez antes de dormir seus contornos, antes de te abraçar por completo na imaginação. Eu sonhava que te esperava numa avenida daquelas largas, iluminadas, em alguma cidade nublada na época do Natal. Contava nos dedos cada segundo para te contar uma coisa que agora esqueci. Acordei de susto, uma, duas, várias vezes, com a foto perdida entre as dobras do colchão, do travesseiro. Corri a vasculhar todas as gavetas e utensílios do quarto, chegando até quase decepar um dedo num objeto cortante. Era a sua foto que desaparecia ali, num instante, para o completo desespero de nunca mais te achar por completo. Comecei a tatear o chão na esperança de achar qualquer fragmento, pista do destino para te encontrar. Achei. E estava dentro de uma alpargata. Como se você dissesse que me queria a seus pés, sorrindo ali naquele retrato, bobo, como na última foto de um encontro rápido, depois de dois dias em agudo sofrimento por não suportar a ausência dos teus olhos de faroleiro. Liguei na rádio e pedi duas músicas tristes na esperança de te encontrar. E não demorou muito tempo para que você percebesse o sinal. Não só ligou de volta, como apareceu na porta da minha casa no dia seguinte, dizendo: fica mais uma hora. Não fui trabalhar pra passar aquele dia contigo, debaixo de um sol a pino, andando descalços numa trilha um pouco longe da cidade, para descansar daquela poluição terrível. Você fez de uma folha de papel um origami de flor, pregou com alfinete na minha lapela e me tirou pra dançar, assim, sem música. No final do dia eu estava tonto e desinibido, seu sorriso aberto me chamava para o ninho, como um pássaro órfão que encontra o amor depois de partir com a asa quebrada. Eu Pra que a gente se perder da gente? Eu quero ficar no eterno passo daquela tarde preguiçosa. Assim que segurei o seu braço no estande da rodoviária percebi que você ia voltar. Tirou do bolso um envelope miúdo com dois escritos. O coração apertou, o ônibus ligou a partida. Estava frio e falei: fica com o meu casaco. Você deu tchau pela janela e não imaginava que eu embarcasse contigo no seu bolso, um dia meu. No envelope, um pequeno mapa com pistas. Cheguei em casa, entre as frestas da parede, estava lá, parecia que há anos, como se você estivesse lá antes de mim, todo esse tempo, e me esperasse. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino