(...) «Isaac largou-o de arremesso e saindo à sala escreveu:
«Sou um desgraçado, mas a minha desgraça vai ter fim. Devorei-lhe quatro contos de réis e hoje vou matar-me por causa de dez mil réis. Sim, vou matar-me!; hoje à noite, se não tiver restituído dez mil réis que me emprestaram, dou um tiro na cabeça. É quase cómico que a vida dependa de tão reles contingência, mas é assim mesmo... Meu pai, salve-me, arranje-me este dinheiro; eu queria viver, ser bom, ser útil. Senhor, lave-me da vergonha e serei outro.»
Escrito o bilhete, foi com certa fatuidade romântica pô-lo diante dos olhos do padre, e saiu a ver a lixívia para dar tempo a que lhe fosse dada resposta raciocinada. A água fervia em cachões nos potes bojudos de dois almudes. Nas panelas esgrouviadas, o vapor cantava. O alpendre enrubescia todo com a labareda. E Narcisa ia e vinha, rubicunda e alegre, a escorrer bagas de suor.
O velho, feito o assento, desceu as escaleiras e, de sacho na mão, foi-se para o quintal mondar as batatas novas de que despontavam do solo como ferretes de esmeralda as primeiras folhas. Isaac correu ao escritório e, por baixo da sua súplica, leu a máxima jocosa: Qui lavat asinum perdit aquam et saponem.
[Quem lava burro desperdiça água e sabão]
Desvairado, então, começou a soluçar sobre a sua desdita. Caía a noite, uma noite suave e negra sem rumor de vento, nem lucilações de estrelas. Lá fora no alpendre, a fogueira crepitava esbrasida, ouvia-se o lume a traçar, mascar os tangos verdes, alimentando de novo os potes com segunda água.
O padre entrou de tamancos a chocalhar. Isaac correu-lhe ao encontro e, em voz submissa, interrogou:
-- Que resposta me dá?
O padre abanou a cabeça, franziu os lábios num esgar mirrado:
-- Ainda tem a desfaçatez de me pedir dinheiro?
-- Escuso pois de contar...
-- Dinheiro que eu tivesse, não era você que mo larpava. Antes gastá-lo em rosalgar...
-- É a última vez que lho peço.
-- Já disse, não o tenho; mas, ainda que o tivesse, não lho dava.
-- É possível que o não tenha, mas autorize-me a ir pedi-lo...
-- Pedi-lo, peça-o a quem lhe apetecer. Que tenho eu com isso?
-- Mas em seu nome; bem sabe que não tenho crédito...
Pois arranje-o -- proferiu, dando uns passos para a janela. -- Não está farto de me roubar? De me chupar a medula?!
-- Bem, tenho então de acabar com a vida?
-- Acabar com a vida!... Ah! ah! ah! um homem que nunca teve dignidade! Acordou-lhe tarde a honra.
-- Não me insulte! Ninguém tem nada que me jogar à face...
-- E os latrocínios contínuos que tem cometido nesta casa? E as ofensas a sua mãe e os murros que lhe tem dado? E a exploração sórdida de seu mano? Não lhe podem jogar isso à face?
-- Podem, embora metade do que está a dizer não seja verdade. Mas na sociedade, no público, ninguém me poderá imputar a mais leve mácula.
-- Vadio! Melhor fora tê-lo estorcegado ao nascer. Mariola!
-- Senhor, dê-me os dez mil réis!... Quer deixar dar cabo de mim por uma bagatela!...
-- Escusa de teimar; não tenho dinheiro, mas, tendo-o, não lho dava.
-- Pelo seu Deus, não me desampare...
-- Mas que seca! Não tenho dinheiro...
-- Deixe-me ir pedi-lo emprestado...
-- Quem lhe pega...?» ...
(continua)
tangos — gravetos.
rosalgar — veneno de ratos, óxido de arsénio.
https://alcancaquemnaocansa.blogs.sapo.pt/glossario-sucinto-para-melhor-29693
esgrouviadas
n adjetivo
m.q. esgrouvinhado
1 de estatura elevada e magro, como um grou; engrouvinhado, esgrouviado
2 que se apresenta com os cabelos desalinhados, revoltos, desgrenhados; engrouvinhado, esgrouviado
estorcegado »» estorcegar
n verbo transitivo direto
1 torcer fortemente; estorcer
Ex.: e. o pé
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"