(...) «Ali quedaram Mafalda e Gil por muito tempo, entre a penetração silenciosa da planície e dos montes, enquanto D. Sol amanhava os seus primores de confeitaria. Como Mafalda fitasse as estrelas que lagrimejavam nos altos céus, disse-lhe o cavaleiro:
-- A modo que muito longe estais daqui...!
-- Sim, bem longe viajava a minha fantasia. Será verdade que as estrelas têm uma linguagem para falar aos homens?
-- Assim o creio. Nenhuma página do livro de Deus está em branco para quem quiser ler. Escutai aquele ribeiro: -- não é verdade que repete as queixas de quem sofre? Olhai agora a peneira da lua que tão bem ciranda o luar... Parece-se com certas criaturas que eu conheço. Quando vão a andar, dir-se-ia que têm por missão semear graça...
Mafalda sorriu e tornou:
-- Não é isso, senhor cavaleiro. Pode, porventura, ler-se nas estrelas os destinos das almas?
-- Já ouvi dizer que sim. E, se não fica mal perguntar, que desejava a minha senhora saber?
-- Coisa de nada. Vedes, além, na Estrada de Santiago, aquela estrelinha a luzir e a apagar -se como candeia ao vento... Já a descobristes? Lá, para trás daquele cacho que parece mesmo um craveiro com cravinas de ouro. Há pouco reparei nela. Tão triste está e sozinha que lembra uma alma... certas almas desoladas. Que significará ali, e estar ali terá, acaso, alguma significação para a existência das pessoas? Pergunto-me ainda que é o que o seu olhar, que já há-de ter encontrado o nosso, estará a dizer...?
-- Eu sei o nome de algumas constelações e de alguns astros, mas não sou mago que lhes decifre o sentido. E bem gostaria de sê-lo, muito mais para vos satisfazer o desejo. A esse grupo de estrelas chamam os astrólogos o Cisne. Semicerrando os olhos, enxerga-se, de asas abertas, a vogar num mar de leite...
-- Esperai lá então... É verdade, parece uma ave que vai singrando! Mas a minha estrela, D. Gil, não é essa; é mais para a esquerda, um bocadinho mais para a esquerda, a distância aí de dois côvados... entre as duas que vão à frente, ensinando o caminho,e aquele bando em volta da maior, que lembra uma galinha com os pintainhos.
-- Vejo, vejo agora! Tendes razão; lá está ela perdida e triste na Via Láctea. A galinha com os pintainhos é a Lira. Está, pois, entre a Lira e o Cisne a vossa estrela. Não é isso? Consultai-a que talvez vos responda...» ...
(continua)
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 36 ) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Tentação do Sátiro»
literatura, ficção, diálogo narrativo, astronomia
Texto originalmente publicado em Alcança quem não cansa
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