(...) «Naquele remanso passava Mafalda muitas vezes as horas da cresta, bordando na talagarça, enquanto os pensamentos lhe corriam e se lhe emaranhavam mais na cabeça que no céu o voo das andorinhas. O arvoredo e o bafejo da água tombante amorteciam a brasa do sol, e o grupo delicioso ia-lhe ensinando, lenta, lentamente, através de horas e horas, ao embater teimoso em seus olhos, a sua divinal lição. O ar do Sátiro, primeiro, ofendera-a à força de licencioso e dominador; depois, pouco a pouco, insinuara-se, e, viscoso, perturbante, audaz, arteiro, acabara por captá-la e envolvê-la. E na sua carne, que o velho senhor de los Balbazes não soubera arpejar, suspiravam, gemiam desejos dolentes e misteriosos. Se Gil de Tavera vinha surpreendê-la ali, estranhamente se afogueava; e, para espairecer a confusão, erguia-se e corria, estouvada e risoteira, a borrifar as flores que o ardor do sol chamuscara. Depois, vencido o enleio, pelas avenidas da quinta, que renques de buxo orlavam até altura da cinta, entretinham o tempo vagueando. E D. Sol, que à janela observava todo este comércio com olho matreiro de duegna, acabava por dizer para si e com a Virgem do Pilar que nem dois irmãos seriam mais irmaõs que a sobrinha e aquele moço de nobres e discretas maneiras. Por mais que os vigiasse, nada notou que frangesse a fraterna estima. E a sua suspicácia foi-se dissipando como a neve de Guadarrama aí sol que vinha de Levante, impetuoso como um novilho pelos prados.»
(continua)