Fotografia da minha autoria

O segundo solo de Pedro Teixeira da Mota

Os sonhos são pequenos pontos que nos guiam. Sem saber tudo o que 2019 tinha reservado no panorama cultural, fui agendando alguns, mas mantendo margem para novidades - que fizeram por chegar na segunda metade deste ano. Portanto, gerindo a ansiedade de adquirir bilhetes com antecedência, neste mês de novembro, concretizei um muito particular. E voltei ao Teatro Sá da Bandeira para assistir a um formato que está no topo das minhas preferências: o Stand Up Comedy.

Pedro Teixeira da Mota é um talento em ascensão. E é bastante criativo nos projetos que abraça, seja com o podcast, seja no Erro Crasso [em parceria com Luís Franco-Bastos, programa que já deixa saudades]. Mas o humor é a sua casa. É a sua identidade. E eu estava mesmo curiosa por vê-lo ao vivo, até porque a dinâmica é completamente diferente: mais imediata, mais pura. Quando o produto é bom, acredito, resulta em qualquer plataforma. No entanto, a comédia necessita dessa presença, porque tem logo outra envolvência. Outro charme. Outra intuição. 

«Depois de desbloquear o Impasse em que se encontrava, está agora confortavelmente num café, com amigos, a contar-lhes o que se tem passado na sua vida». Caramel Macchiato é, então, «um relato real de novas experiências, viagens e decisões», que culminaram num solo impressionante, arrancando-me gargalhadas sucessivas. Não só porque está bem construído a nível de texto, mas também pela sequência dos acontecimentos. Além disso, é inegável o quanto Pedro Teixeira da Mota é brilhante. Porque tem traços que, para mim, são essenciais: a sua naturalidade e a sua expressividade. Em simultâneo, é muito inteligente na noção e na gestão do tempo, que pode influenciar - positiva ou negativamente - o impacto da piada. E, depois, tem a capacidade de recorrer ao detalhe mais surreal, tornando-o na figura central e despertando a única reação possível: o riso na plateia.

Fui com a minha afilhada e, no final, enquanto trocávamos considerações sobre o espetáculo, houve algo que destacamos em comum: a vertente relacional. Porque os temas com que ele trabalha - e, em certos casos, satiriza - podem não ser fraturantes para a comunidade, mas são, sem qualquer dúvida, uma ponte entre ele e o público. Focando-se no seu meio, nas suas vivências, faz-nos pensar que aquelas histórias poderiam representar qualquer um de nós. E por muito que eu aprecie o lado global e social do humor, onde a crítica é um dialeto vincado e constante, gosto muito mais quando há este lado humano, individual; este partir de dentro para fora, de quem não se leva a sério, atribuindo um maior contexto e significado ao que é partilhado. Existe um conjunto de assuntos que, em matéria humorística, resulta sempre [e seria hipócrita da minha parte mencionar que não me rio com eles], mas o facto de ele se distanciar dessa imagem mostra bem o percurso que está a traçar. E a legitimidade com que o fortalece.

Caramel Macchiato espelha crescimento. Maturidade. E superou todas as minhas expectativas. Com uma dinâmica fluída, que até teve direito a um momento musical, Pedro Teixeira da Mota arrasou no palco do Sá da Bandeira. E provou, novamente, o porquê de ter tantas datas esgotadas: porque chegou para marcar o futuro da comédia em Portugal.