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| Fotografia da minha autoria |
«Os binóculos são os melhores para ver pássaros, de longe»
A passagem do tempo, por mais que soe a lugar comum, é fascinante e curiosa. Porque sentimo-la de uma maneira muito particular, dependendo sempre do que ansiamos. E do quanto desejamos que chegue determinado acontecimento. Quando escrevi sobre Roda Bota Fora, partilhei a esperança de realizarem uma tour que incluísse o Porto. Concretizou-se. E eu adquiri bilhetes com mais de um mês de antecedência. No entanto, a data tardava a chegar. E, depois, passou num sopro. E eu só queria ter o dom de eternizar esta noite épica.
Em jeito de contextualização, o projeto tem seis comediantes: Guilherme Fonseca, Pedro Sousa, Daniel Carapeto, Pedro Durão, Duarte Correia da Silva e Diogo Abreu. Um palco de combate: a 24 de abril, foi o Hard Club. E divide-se em duas partes: na primeira, cada elemento tem dez minutos de Stand Up a solo, enquanto, na segunda, acontece o verdadeiro Roda Bota Fora: uma batalha de onliners [piadas curtas], na qual cada participante tem duas vidas. E ganha, naturalmente, a piada que obtiver maior reação por parte do público - por gargalhadas e/ou palmas. É, ainda, nesta parte que contam sempre com a presença de um convidado surpresa - humorista ou não -, revelado apenas no momento. Na cidade Invicta, abriram duas sessões. E a convidada da primeira foi Cláudia Pascoal, que, estando fora da sua zona de conforto, ainda deu luta. Lamento por quem não teve a oportunidade de estar presente, porque perdeu um espetáculo incrível.
Faltavam 15 minutos para as 21h quando entrei na sala 2. E dei por mim a sentir um certo nervoso miudinho, como se fosse subir a palco. Mas acredito que seja uma consequência natural pela admiração que lhes tenho, enquanto projeto e enquanto artistas. E ter o privilégio de assistir ao vivo é, sem qualquer dúvida, indescritível. Por isso, abracei cada segundo em pleno. E embarquei nesta viagem alucinante, que me fez chorar de tanto rir. Inevitavelmente, seria de esperar que, sendo seis, se estabelecesse algum tipo de comparação, mas encheu-me o coração perceber que foram tão equilibrados. Tenho preferidos, reconheço, mas, mantendo um lado imparcial, foram todos brilhantes! Distintos na abordagem e no texto, marcando a sua individualidade, criaram uma dinâmica com ritmo, coesa e a transbordar qualidade. Além disso, mesmo que não fosse esse o objetivo, foram exímios a quebrar muros e preconceitos, e a diminuir a diferença. Partindo de temas inofensivos ou mais delicados - apesar de, para mim, todos os assuntos poderem ser satirizados -, este formato primou [como sempre] pela abrangência. E pela certeza de se ter reunido um grupo extraordinário, com um conceito original, que merece todo o reconhecimento.
O humor é a identidade que os define, ainda que alguns tenham profissões paralelas. E o palco fica-lhes bem. Mas é preciso coragem para enfrentar o público, sobretudo, por testarem material novo. Isso não é só criativo e desafiante, é também irreverente e imprevisível. É arrojado. E é por isso que convence e conquista de imediato - isso e o talento intrínseco a cada um, que é a característica chave, até porque não são estreantes nesta área; sabem o que fazem e o que valem. Fui vê-los ciente de que, embora tivesse assistido a todos os vídeos disponíveis, nunca estaria preparada para o que me esperava. E ainda bem. Porque superaram todas as minhas expectativas - por si só, elevadas. Levei os meus pais comigo e foi mesmo recompensador ouvi-los tecer tantos elogios. Eu sou supeita, porque adoro o projeto, mas eles só conheciam os traços gerais. Sabe-los rendidos foi especial. Claro que a minha opinião permaneceria inabalável se a reação deles não coincidisse com a minha, mas tem outro encanto quando partilhamos experiências com quem compreende o nosso fascínio e admiração.
Que noite! Roda Bota Fora foi sem filtro. Puro. Com muita honestidade. Em primeira instância, o principal é ter graça. E eles têm-na em abundância. E é necessário valorizar a audácia do trabalho que estão a desenvolver, porque, mesmo com experiência, sujeitam-se à falha e à validação da plateia. Preparam-se. Arriscam. E estão na linha da frente, onde poucos se aventuram. Por mais que tente, nenhuma das minhas palavras lhes fará justiça. Mas ter-lhes-ei sempre um profundo respeito. Ficaria mais tempo a vê-los atuar. Porque foram geniais. E proporcionaram um fragmento artístico que nunca esquecerei. Obrigada ♥
