Fotografia da minha autoria

«Um espetáculo que pode mudar a sua vida»

O destino tem sempre demonstrações curiosas. Atendendo a que é capaz de nos proporcionar reencontros que, talvez, não sentíssemos tão perto de serem concretizáveis. E eu despedi-me de fevereiro, no penúltimo dia do mês, regressando a uma casa que tem sido palco de sonhos realizados e memórias inesquecíveis. É que, para minha felicidade, estava na hora «de voltar a jogar o Roda Bota Fora», no Hard Club.

Guilherme Fonseca, Pedro Sousa, Duarte Correia da Silva, Diogo Abreu, Pedro Durão e Daniel Carapeto assumiram o compromisso de retomar um dos projetos mais originais, para mim, de Stand Up Comedy, abraçando uma segunda tour pelo país - a rock tour ou, simplesmente, Jorge - com a batalha mais famosa de oneliners [piadas curtas]. Foi nos meses finais de 2018 que o grupo arriscou neste formato, que conta com duas partes distintas: uma individual e outra mais interativa, referente ao jogo, na qual o público decide, por gargalhadas e/ou aplausos, quem sai vencedor. Para tornar a experiência mais completa e desafiante, é nesta altura do espetáculo que se fazem acompanhar de um convidado - humorista ou não. Mas será que existem mudanças nesta versão 2.0?

A base é a mesma, uma vez que cada interveniente continua a ter dez minutos a solo. No entanto, o Roda Bota Fora propriamente dito sofreu um acréscimo. Porque, agora, têm uma roda - qual Preço Certo - com consequências: pedir uma piada a um dos colegas, passar para primeiro da fila, pedir a uma pessoa do público para contar a piada [que é dita, pelo jogador, uma única vez ao seu ouvido, tendo que a reproduzir tal como escutou], tirar piadas de merda de um pote, trocar de posição na fila [a qualquer altura, com quem quiser] e perder, automaticamente, uma vida. Assim, antes do confronto, o convidado fará girar a roda duas vezes: uma para definir a consequência e a outra para descobrir quem será o contemplado. Numa entrevista à Time Out, Duarte Correia da Silva mencionou que uma das grandes graças do jogo é a injustiça. Mas esta nova abordagem elevou o nível a outro patamar. Tornando o momento mais imprevisível. E ainda mais entusiasmante.

Na esgotada Sala 2, durante uma hora e meia, chorei de tanto rir. Porque eu já sabia que seriam excelentes, tanto em conjunto, como em separado, mas superaram todas as minhas expectativas - pela segunda vez. Os textos foram mais sólidos. Mais coesos. Numa mistura de storytelling e ritmo humorístico, com temas muito pertinentes e, claro, engraçados - também pela maneira como os apresentaram. E o que me fascina, para além do talento óbvio, é o facto de não se levarem a sério. É a desconstrução das suas fragilidades. E a fusão entre uma certa vulnerabilidade e transparência e aquilo que sabem ter de melhor. Além disso, têm uma energia brutal, pois sente-se toda a cumplicidade entre o grupo. Preferências à parte, há um equilíbrio evidente. Mais segurança. E traços transversais: sentido de cooperação, respeito e capacidade de gerir a falha. Como se não fosse suficiente, ainda sabem receber e adaptar o ambiente ao convidado. No Porto, foi Alexandre Santo, que provocou um verdadeiro estrondo.

O Stand Up é um dialeto comum. E eu continuo a defender que o palco lhes assenta bem. Pela energia. Pela ausência de filtro. E por toda a qualidade que transbordam. Com audácia, margem de progressão, irreverência e uma boa dose de loucura, estão a marcar a diferença no panorama da comédia em Portugal. E sinto que já é hora de, na cidade Invicta, os permitirem voar para salas maiores, como o Coliseu ou o Sá da Bandeira, até porque têm argumentos suficientes para tal. Contudo, estarei disponível para um reencontro, no Hard Club, em 2021. Com a certeza de que lhes terei sempre a maior consideração e admiração.