(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de outubro de 1999)
“Por sorte, o nosso povo sempre preferiu a lenda à realidade—eu o sei melhor que qualquer um, tendo me transformado numa das sombrias lendas da República” Nestas palavras do personagem-título o leitor encontra uma boa chave para entender BURR (1973, em tradução de Haroldo Netto para a Rocco), de Gore Vidal, o último de sua série de romances sobre a História norte-americana publicado no Brasil, com grande atraso.
O engraçado com relação a essa série é que, no posfácio de 1876, Vidal escreveu: “Embora eu tenha uma séria desconfiança de autores que escrevem trilogias (tetralogias estão além de todos os limites), foi exatamente isso que fiz. Washington D.C., Burr e 1876 registram, numa sequência, a história dos Estados Unidos”. Ora, se as tetralogias estão além de todos os limites, o que dizer de uma obra com pelo menos seis volumes (depois, Vidal acrescentou à sua sequência mais três volumes: Lincoln, Império e Hollywood)? Mais uma vez a necessidade de mostrar a língua sempre “afiada” traiu o autor de Juliano e Criação.
Quem foi Aaron Burr? Um dos grandes nomes que surgiram com as guerras de independência e que foi vice de Thomas Jefferson. Só não foi ele mesmo presidente porque o próprio Jefferson o acusou de traição, um episódio contraditório como outros tantos na sua longa vida (talvez não tão longa quanto o romance de Vidal).
O relato mescla as memórias do próprio Burr (que são quase insuportáveis de tão enfadonhas) com as atribulações de um candidato a biógrafo, Charles Schuyler, que depois será o personagem principal de 1876, no qual ressurge bem mais velho, voltando de uma longa estadia na Europa (talvez não tão longa quanto o romance de Vidal) para encontrar a nação americana totalmente transformada no ano do centenário da independência, encaminhando-se para ser o império de hoje.
Em Burr, Charles ainda não foi para a Europa e ainda está na casa dos vinte anos, trabalhando muito próximo a Burr numa Nova Iorque que ainda não é a que hoje conhecemos como cidade-ícone do nosso tipo de civilização. É uma cidade ainda provinciana e o septuagenário Burr, apesar (ou por causa) das lendas sombrias que atrapalharam sua carreira, ainda mantém prestígio e fascínio, às vésperas de uma eleição importante, na qual um dos candidatos a presidente, Van Buren, pode até ser um filho ilegítimo dele. Este, aliás, é um dos detalhes que Schuyler tenta averiguar, entre as muitas lendas sobre Burr e as muitas páginas do romance.
Burr é longo, leitor. E como. Se “breve é a vida, longa é a arte”, Gore Vidal exagerou na dose. A longa, quase interminável, sobrevida literária de Aaron Burr torra umas quantas vezes a paciência porque o leitor comum (ou, pelo menos, aquele que não é dos EUA) não consegue entender uma estratégia narrativa com tantos detalhes exaustivamente relatados, tantas ninharias biográficas esmiuçadas, tantas informações veiculadas numa maçaroca que só o mais apaixonado colecionador de anedotas dos primórdios da República norte-americana vai querer relembrar ou conservar (certamente, já existem os doidos que fazem isso).
Tudo em Burr, para que se atingisse o objetivo desmistificador e reavaliador a que Vidal parece ter se proposto na sua série, convidava à síntese. E foi exatamente o oposto que aconteceu. Todos os detalhes, informações e momentos de vida são hipertrofiados e o leitor assiste a um desmoronamento narrativo no qual ele é a vítima, já que é ele quem fica soterrado embaixo dos escombros do que poderia ser um grandíssimo romance histórico e que acaba sendo apenas um grandíssimo romance no número de páginas. Em se preferindo a lenda à realidade, é muito mais prazeroso ver como isso acontece no magnífico O homem que matou o facínora, de John Ford, uma aula de essencialidade estética.
Embora tenha lido os volumes separadamente, e por isso não possa fazer uma avaliação definitiva, dar uma última palavra, eu acredito que os melhores da série—de longe—são mesmo Wahington D.C. e Império. Mas mesmo estes deixam a impressão final de que há um motivo pessoal muito profundo (embora talvez inconsciente) para Gore Vidal ter interesse por Aaron Burr e sua trajetória: ao contar a história de um vice-presidente que não conseguiu chegar “lá”, ao ponto máximo da pirâmide política, estando tão próximo, que não conseguiu ser o “primeiro homem de Roma”, ele também está contando a sua sina como escritor. Um escritor que ficou na vice-presidência, estando muito próximo, mas ainda assim muito longe da grande criação literária e que, apesar do seu talento, nunca chegou “lá”, nunca alcançou o ponto máximo da pirâmide. Isso não o impediu, assim como não impediu seu herói, de alcançar prestígio e de exercer fascínio (inclusive sobre quem aqui escreve), porém causa a mesma sensação de desperdício.








