(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de fevereiro de 1998)

A ficção de Gore Vidal tem seguido três vertentes principais: os romances que comentam a nossa época, geralmente de forma satírica (Kalki, Duluth, por exemplo, para não falar de Myra Breckenridge), os romances com ambientação histórica em outras civilizações (Juliano, Criação) e, enfim, os romances que vêm compondo um painel da república norte-americana: Washington D.C, Lincoln, Império, Hollywood. A essa última vertente pertence  1876, que está sendo lançado pela Rocco (em tradução de Rubens Figueiredo).

Em sua maior parte, 1876 transcorre no ano do centenário da independência dos EUA. Charles Schuyler, o narrador, volta de uma ausência de décadas, nas quais viveu na Europa, onde nasceu sua filha, Emma, que o acompanha no regresso à pátria, como num daqueles romances de Henry James do tipo Os Europeus, disposta a arranjar um marido rico que lhe dê a estabilidade que o pai, arruinado e vivendo do jornalismo, não pode lhe proporcionar.

A partir daí, 1876 nos apresenta duas situações narrativas complementares. Numa delas, Vidal faz um painel da corrupção dominante no último ano do presidente Grant, corrupção que ao leitor brasileiro parecerá familiar, com escândalos, comissões parlamentares que acabem em pizza, e principalmente dinheiro público jogado no lixo (ou melhor, no bolso de alguém); na outra, narra-se a estranha relação que se estabelece entre Emma e o casal Sanford.

Emma é a melhor amiga de Denise, mas tornar-se-á esposa de Sanford, fato que terá efeito sobre as outras gerações da família, tal como verificamos em Washington D.C. e Império (considero o primeiro uma obra-prima e gosto bastante do segundo, embora não alcance o mesmo nível).

O painel de Vidal está sendo publicado de maneira desordenada no Brasil. Os últimos volumes já foram publicados e só agora é que os primeiros são traduzidos, como Washington D.C (que é de 1967). 1876 foi lançado justamente em 1976 (para pegar, de maneira corrosiva, o bicentenário da independência). E ainda falta Burr, história do pai de Schuyler.

1876 é bom? Bem, depois da brilhante abertura (Washington D.C.), com o mundo dos congressistas norte-americanos e, por extensão, da política e da ética norte-americanas, me parece que Vidal sucumbiu ao lado fofoqueiro e adepto de ninharias, que atropelam a trama do livro e tornam a narrativa muitas vezes monótona (afinal, ele, por mais que se esforce, não é um Henry James), mesmo porque são 460 páginas! O resultado final acaba sendo o seguinte: a trama, muitas vezes fascinante, e certos momentos extraordinários, ficam prejudicados pelo pendor piadista de salão de mr. Vidal.

O projeto total a que se propôs o autor de Juliano valoriza cada obra individual, mas pelo menos num primeiro julgamento 1876 parece ser o mais fraco da série, com a ressalva de que há aqueles momentos tão inspirados que o livro nunca pode ser descartado. A impressão que se tem é que Vidal sempre poderia caprichar mais e se realizar como o autor de primeira linha que ele quer tanto ser, e que pode com certeza ser, mas menos vezes do que ele desejaria (e reconheceria) consegue ser.