(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de fevereiro de 1998)
Na semana passada, comentei nesta coluna 1876, de Gore Vidal. Um dos mais famosos romances do autor norte-americano chega em 1998 aos 50 anos: A cidade e o pilar (The city and the Pillar, em tradução para a Rocco, de Eliana Sabino; houve uma anterior, com o título A longa espera do passado), marco histórico no tratamento ficcional da homossexualidade.
No livro, Jim Willard e seu melhor amigo,Bob, ambos ainda adolescentes, passam um fim-de-semana numa cabana de floresta e acabam transando (desejo antigo de Jim). Bob vai embora da cidade e Jim tenta seguir seus passos, contudo perde contato com ele e, aos poucos, mergulha nos códigos estereotipados do mundo gay, no qual penetra pela mão de um astro de cinema que passa a sustentá-lo.
Jim acredita que ele e Bob viveram algo especial e diferente. Para ele, não houve com o amigo uma experiência homossexual e sim uma completa identificação. Ele, Jim, não ama homens. Ama Bob. Por isso se mantém uma figura solitária (“tão completamente fechado em si próprio, incapaz de expressar-se, sem meio de comunicação, sem ter que oferecer além do corpo”, lemos a certa altura, e aí sempre procuro me lembrar que Vidal o publicou aos 23 anos) até que, no final da guerra, passados quase dez anos, reencontra seu parceiro da adolescência. É quando Jim terá de encarar o peso da tão falada “opção sexual”. Uma opção que, segundo Sullivan, um dos amantes do protagonista, segue trilhos pré-estabelecidos: “Começa na escola. Você é um pouquinho diferente dos outros. Às vezes é tímido e um pouco frágil; ou talvez precoce, ou bonito demais, um atleta, apaixonado por si mesmo. Depois começa a ter sonhos eróticos com outro garoto, procura ficar amigo dele; se ele é suficientemente ambivalente e você for suficientemente audacioso, vão se divertir fazendo experiências um com o outro. É assim que começa. Depois encontra outro garoto e mais outro; quando cresce vira caçador, se tiver uma natureza dominadora. Se é passivo, vai virar uma esposa. Se é visivelmente afeminado, pode juntar-se a um grupo de semelhantes e assumir ser conhecido e marcado”.
Resistirá A cidade e o pilar ao peso dos 50 anos? Literariamente, não muito. Apesar do título pretensioso, o livro se ressente da juvenilidade e superficialidade do autor. A estrutura é fraquíssima e tende à monotonia, a ligação entre as várias fases da vida de Jim é frouxa, mesmo quando parece ao leitor “literária” demais (como o triângulo no México). O próprio motivo que “amarra”, se é que isso acontece, a trama (reencontro com Bob) é forçado e chega às raias do inverossímil (curiosamente, essa ideia da experiência “única e especial” vai alimentar até um romance tardio de Vidal, Império, onde Blaise Sanford, um dos personagens principais, só encontra um único homem que lhe agrada, justamente o amante da irmã).
Ainda assim, o livro tem qualidades (e, é claro, Vidal não é um escritor qualquer). No plano da cansativa discussão homossexual, é ainda uma das melhores obras a abordar a questão do desejo masculino, sem martirológios ou apologias (embora apresente um desdém pela mulher que chega a ser chocante). Há até deliciosas maldades, como o gay convertido ao catolicismo que imagina um céu onde os anjos se parecem com fuzileiros navais.
Por outro lado, no que se refere especificamente à evolução da obra de Vidal, o livro mostra o que ela ganhou e perdeu. Vidal hoje é senhor de muito mais recursos do que as ingenuidades narrativas de A cidade e o pilar, basta lembrar de grandes obras como Juliano, Washington D.C, Kalki ou Criação; porém, ele foi adquirindo um tom enfatuado, um incômodo cinismo exibicionista, quase folclórico, que faz o leitor ter sempre a impressão de que ele tem medo de ir a fundo nas questões, receando não se mostrar brilhante ou inteligente demais, ou parecer que ainda mantém algum tipo de ilusão sobre o mundo. Em A cidade e o pilar, comm seu estilo cru (no mau sentido), talentoso-mas-não desenvolvido, Vidal parece simpático e verdadeiro ao leitor. Com certeza porque nele ainda havia ilusões sobre o mundo. Nos americanos, a perda da inocência é sempre mais apaixonante do que o cinismo.






