Fotografia da minha autoria

Tema: Um autor que nunca tenhas lido

O Porto está cheio de cantos e recantos onde me perco, mas sem perder o sentido de pertença. Deambulando pelas suas ruas históricas, com memórias inigualáveis, vou avistando novas paisagens. Por isso, mesmo conhecendo a sua essência, ainda há muito desta cidade para desvendar. E senti que seria a ponte perfeita para abrir a porta do Alma Lusitana. Abraçada aos livros, fui à descoberta de Hugo Gonçalves.

«Tinha de perseguir tudo o que me pudesse desprender do 

puxão gravitacional que era a ausência da minha mãe»

Filho da Mãe é um relato biográfico, despretensioso e comovente sobre a perda: da mãe e de identidade. Assim, recuando à tarde em que recebeu a trágica notícia do falecimento da sua progenitora, leva-nos numa viagem introspetiva, na qual procura pistas que interliguem as suas recordações e fragmentos que apaziguem a dor, ao mesmo tempo que mantenham presente esse elo relacional, porque é pavoroso termos a noção que nos estamos a esquecer, aos poucos, de características tão identitárias de alguém que significa o mundo para nós. E é através de uma luta interior, com vários percalços pelo meio, que o autor compreende a importância do luto, embarcando num processo catártico.

«E só a verdade me serve, mesmo que seja a verdade de saber tão pouco»

A narrativa ora literária, ora poética, com uma linguagem sem rodeios, não representa um ajuste de contas com o passado, mas, antes, um manifesto de amor e a tentativa de identificar os vazios e de descobrir a pessoa em que se tornou. Com uma carga emocional e psicológica bastante interessante, este livro explora as angustias, a saudade, as feridas que queremos curar e as sombras que nos revestem, quando há algo que nos destrói por dentro. Porque as doenças nunca afetam apenas o paciente, pelo contrário, são partilhadas com a família, mesmo que a perceção da realidade não seja a mais nítida.

«[...] o passado dos lugares era demasiado pequeno para 

que o considerasse território soberano de apego e das saudades»

O tema central é a morte. Ou, melhor, o que acontece na nossa vida após essa privação. No entanto, também coloca o foco na droga, no álcool, nas doenças sexualmente transmissíveis, no adultério, na depressão, na raiva e em todas as formas de escape que priorizamos para atenuar, para colmatar, a ausência. E é por essa razão que nos relacionamos tanto com esta história escrita na primeira pessoa: porque podia ser a nossa e todos sabemos o quanto magoa a despedida.

«Onde se guarda o passado há sempre humidade e esquecimento»

Filho da Mãe tem um tom cru, mas tocante, no qual se evidencia o sofrimento comedido, fruto da distância temporal. Despertando, em nós, as saudades, é impressionante como há momentos que influenciam o nosso crescimento, interligando a inquietação e a aceitação. Com a vida a caber em duas malas de viagem, existem alturas em que necessitamos de partir para percebermos que é a hora de ficar. Porque as nossas pessoas só partem quando nos esquecemos delas. E Hugo Gonçalves, neste obra, mostrou-nos que a mãe permanece perto, dentro do seu peito.

«Se ela não tivesse morrido, talvez nem sequer 

escrevesse. Teria outra identidade, outra história»

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