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Tema: Poesia
As palavras são melodia. São casas. E são asas. Têm o dom de nos unir num dialeto intemporal e de nos levar a conversar sobre os nossos sentimentos mais profundos. Desvendando as camadas que nos descrevem, somos feitos de um traço de mistério, que alivia o silêncio, o medo, as emoções. E abrimos a porta para mundos alternativos, quando colocamos o nosso sentir fora do peito, preenchendo páginas em branco. Tal como a poesia, que nos grita do coração. E sendo este o último tema do The Bibliophile Club, deixei-me envolver na linguagem de um dos autores portugueses que mais me tem emocionado: Afonso Cruz.
Paz Traz Paz mostra-nos a força dos pequenos gestos. E dos atos heróicos. Apela à importância da infância e ao saber valorizar a humanidade. Porque nos concede a oportunidade de deambular por entre pensamentos, inquietações, experiências e sonhos profundamente relacionados com a dinâmica que estabelecemos em sociedade. Além disso, com uma narradora tão particular, sentimos uma certa aleatoriedade encantadora, que acaba por expor as nossas incoerências e fragilidades. Através de um discurso simples e empático, compreendemos que as pequenas coisas podem, na realidade, adquirir um enorme significado, transmitindo a ideia de desenvolvimento. Crescimento. E de cuidado perante o outro. Com observações cómicas, sublimes e sinceras, o jogo de palavras é uma constante. E embala-nos pelo coração de uma menina que nos faz olhar de dentro para fora.
Confesso que não estava a par da obra poética do autor - só conhecia a lírica da sua prosa -, mas este livro é imperdível. Não só pela escrita sumptuosa, mas também pelo foco literário. Porque, embora pareça destinar-se aos mais novos, engloba-nos a todos. Nestas «páginas feitas de inusitada poesia», reconhece-se um caráter transgeracional, porém, há um elo muito forte que nos mantém nos braços da infância - talvez por ser a ponte para as restantes fases da nossa jornada; talvez pela capacidade de abrir a janela da imaginação e de não perdermos a nossa essência. A nossa identidade livre, que nos permite observar o mundo com outra consideração. Em simultâneo, prova o quanto é imprescindível sabermos brincar. E que, no meio do caos, há sempre uma luz. Porque é tudo uma questão de coragem. E de perspetiva.
Paz Traz Paz transborda pensamentos mágicos. Com uma voz inocente, mas igualmente inquietante, a narradora desarma-nos com a sua capacidade de desafiar a lógica, de analisar para lá do óbvio. Partindo, então, de meditações sábias, sentimos o pulsar imprevisível da vida espelhado em versos absolutamente inspiradores e marcantes. Afonso Cruz, ao comunicar connosco sobre o amor, a saudade, as memórias e a esperança, transporta-nos para mais uma encruzilhada da nossa existência.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«Já que se perde tanto, pelo menos
levamos connosco
malas de histórias» [p:9];
«Sim, o mais complicado são os pormenores,
pensei eu. Mas não lhe disse nada,
porque ele ainda é muito novo para se esquecer
de que as coisas pequenas
são muito importantes» [p:37];
«Quantas pessoas
são necessárias
para que nos sintamos sozinhos?» [p:64]
«Isso que leva no bolso é perigoso?
Sim.
Vicia?
Sim.
Afecta o cérebro?
Sim.
Gera perturbações emocionais?
Sim.
Choro? Riso? Distorções espaciais e temporais?
Sim.
Capa dura?
Não, livro de bolso» [p:70];
«Gosto da maneira como o Ricardo me olha,
aquela maneira estranha que dá
a sensação de ser uma estrada
cheia de curvas» [p:94].
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