Fotografia da minha autoria

Tema: Um livro relacionado com música

O laço que une as distintas manifestações artísticas é subtil, mas poderoso, pois mostra-nos que o mundo não é só feito de barreiras e que encontramos pontos comuns entre áreas com voz própria. Quando vi o tema de setembro para Uma Dúzia de Livros, fiquei muito entusiasmada. Não só por relacionar a literatura e a música, mas também por me permitir regressar a um dos autores do meu coração: Afonso Cruz.

«É uma das poucas artes, senão a única, capaz de nos fazer mexer o corpo, de nos pôr a dançar, de provocar a catarse ou o êxtase» [p:14]

Nem Todas as Baleias Voam parte de um programa real - Jazz Ambassadors -, criado pela CIA, com o intuito de, em plena Guerra Fria, atrair o inimigo e melhorar a perceção internacional dos Estados Unidos da América. No entanto, por muito que o ponto de partida desta premissa seja fabuloso, é fundamental compreender que não se extingue aqui. Aliás, este livro está recheado de metáforas e de intervenientes que vivem para encontrar um sentido, permitindo-nos refletir sobre a importância da estrutura familiar, sobre a honestidade intra e interpessoal, sobre o abandono, sobre o amor e todas as suas camadas e desafios. Com uma escrita paradoxal, na qual identificamos um tom ora sábio, ora inocente, verificamos que existe sempre mais do que um significado. E que não descodificamos o que nos rodeia da mesma forma.

«- Ela há-de voltar - disse Gould» [p:82]

É fascinante a capacidade do autor para criar narrativas dentro de narrativas e personagens tão carismáticas. Além disso, temos a possibilidade de reencontrar protagonistas, conhecendo-os com outra propriedade. É por isso que há um traço familiar transversal às suas obras, despertando-nos uma certa urgência para interligar os inúmeros fragmentos. Porém, neste enredo, Afonso Cruz consegue virar-nos do avesso e enganar-nos com imensa mestria, porque há um momento em que acreditamos abraçar o interior de uma missão especial, mas somos encaminhados para temas como a morte, a arte e a solidão, o que reforça a sua agilidade literária. Em simultâneo, alerta-nos para um distúrbio neurológico - denominado sinestesia, que despoleta a aptidão de ver sentimentos, de ver a música -, para o impacto das saudades e para a dualidade que, por vezes, se acentua no caráter do ser humano.

«Se a inspiração não sai da dor de um, 

sai da dor de alguém próximo» [p:179]

Há, ainda, uma cadência de dor que nos desconcerta. Há intrigas que nos envolvem. Há uma carga mais sombria. E há um assassino à solta. Portanto, dentro destas páginas mágicas deambulamos pelo romance, pelo thriller, pelo romance histórico e pela poesia, mas sempre com uma harmonia surpreendente, alimentando uma melodia perfeita. Deste modo, foi intuitivo atribuir cinco estrelas a este exemplar. Mas a minha cotação pesou ainda mais por outro fator: por centrar a dor nas palavras de uma criança. Naturalmente, custa e incomoda, contudo, as crianças também sofrem, também se sentem sozinhas e é essencial escutar as suas angustias, para que cresçam mentalmente saudáveis.

«Insiste em dizer que me ama. Gosto de o ouvir dizer isso. 

São traços que os outros pintam nas nossas telas» [p:214]

Nem Todas as Baleias Voam levanta várias questões, porque a sua mensagem é maior do que nós. Enquanto nos incentiva a encontrar equilíbrio, apelando a uma articulação entre a fantasia e a racionalidade, somos envolvidos num tributo às artes e numa gestão emocional, que coloca o desamparo amoroso, o medo, a amizade, as cicatrizes e um ligeiro sadismo no mesmo plano. Com um final que arrepia, apesar de não o aparentar de imediato, há uma pergunta a acompanhar-nos em surdina: a nossa vida cabe numa caixa de sapatos?

«Até onde podemos esticar o amor?» [p:276]

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