![]() |
| Fotografia da minha autoria |
Tema: Autores Portugueses
Os livros têm uma voz muito própria. Observo a minha estante e sou quase capaz de sentir alguns timbres a sobreporem-se com urgência, porque existe algo a cativar a atenção. E se há autores que ocupam uma grande parte da minha identidade literária há mais tempo, não é menos verdade que outros nomes têm conquistado um espaço confortável. Chegaram de rompante e passaram a habitar em mim, com a mesma facilidade com que me envolvem no seu enredo. E eu tenho encontrado este traço a casa em vários autores portugueses.
O tema cinco do The Bibliophile Club acertou-me no coração. E, embora tenha hesitado na minha escolha, compreendi que só podia seguir uma rota, abraçando O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, de Afonso Cruz. Esta é a minha terceira obra do autor. E era uma das que mais interesse me despertava, sobretudo, depois de ler a apreciação da Rita da Nova e de perceber o vínculo especial com os avós - que eu partilho, apesar de, agora, serem todos estrelas do meu céu. E é, precisamente, este o primeiro aspeto que pretendo destacar, atendendo a que a narrativa se foca num episódio real, homenageando a bravura e a sensibilidade dos seus avós. É, também, por esta razão que o desenrolar da ação se revela tão inspirador, inquietante e comovente.
A poesia nas suas palavras, ainda que escreva em prosa, faz-nos levitar e sentir a mensagem com mais intensidade. E neste livro cheio de metáforas, de personalidades peculiares, absorve-se a solidão, o impacto das sombras, o sentimento de culpa, o desgosto, a morte, o luto, a demência, a revolta, a paixão e o equilíbrio entre a liberdade e a identidade. Além disso, é explorado um lado da humanidade que é crucial para uma convivência saudável: a amabilidade, o espírito de entreajuda. Esta obra renasce do caos - da guerra - e de todas as lutas interiores que surgem quando não nos sentimos seguros no caminho. E demonstra-nos que todos procuramos o nosso lugar no mundo, mesmo que existam amarras a atrasar-nos.
Viajando através das memórias e das vivências da personagem principal - Sors -, há mistério, angústia e uma dose de esperança que nos acalma. Há uma necessidade constante de observar, de entender se os olhos estão abertos ou fechados e se devemos ser verticais ou horizontais. E há, ainda, uma verdade, para mim, irrefutável: é o que não se vê, é o que vem de dentro que nos engrandece. Porque este contacto com a nossa alma mantém-nos mais perto de nós. E esta energia só é possível porque Afonso Cruz, para além de ter uma escrita mágica, é muito visual, proporcionando-nos imagens mentais fidedignas dos acontecimentos. E é por isso que é tão apaixonante.
O Pintor Debaixo do Lava-Loiças tem sentimentos inabaláveis e teorias que se desconstroem. Em simultâneo, centra-se nas emoções inerentes às circunstâncias e nas aprendizagens conquistadas. No final, as notas do autor permitem-nos definir o que é real e o que pertence à ficção, atribuindo um maior sentido à leitura. Nesta narrativa tão plural e filosófica, é a liberdade que sobressai, porque podemos encontrá-la nos locais mais improváveis, o que me faz crer que não são as suas dimensões que nos condicionam, mas, sim, a maneira como as aproveitamos. É o que fazemos com a nossa liberdade que nos solta ou que nos mantém presos. E é com ela que criamos raízes.
Deixo-vos, agora, com algumas citações:
«Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras» [p:18];
«O amor, dizia Sors, é uma casa sem telhado, pois quando olhamos para cima vemos o céu» [p:49];
«- Tem para onde ir? - perguntou a D. Rosa.
- Sugeriram-me um campo de concentração.
- Que tal a nossa casa?
- Seria muito melhor» [p:128].
Nota: O blogue é afiliado da Wook. Ao adquirirem o[s] artigo[s], através dos links disponibilizados, estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥
