Fotografia da minha autoria

«na hora de pôr a mesa, éramos cinco»

Avisos de Conteúdo: Morte, Luto

A perda, em todas as suas ramificações, dilacera, desfragmenta-nos, porque há uma parte de nós que quebra e que parte para um lugar incerto. Embora permaneçamos, visualmente, inteiros, existe um vazio interior que nos grita no peito, para que ressoe a ausência. E, por isso, custa a edificar; custa a unir as peças para sentirmos a vida a seguir. Mas nunca avança com o mesmo sentido, como lemos no livro de José Luís Peixoto.

EMERGIR DOS ESCOMBROS

A Criança em Ruínas tem um tom bastante intimista, levando-nos a deambular pela dor, pela melancolia, pela desintegração da família e pela passagem do tempo. Priorizando memórias de infância, não se coíbe de ser um espelho das várias fases de crescimento do autor, que não só se viu confrontado com a morte de alguém tão próximo, sangue do seu sangue, como também necessitou de emergir dos escombros do luto e da solidão.

«há o silêncio circunscrito à tua volta

e no entanto a tua pele é o silêncio»

Este exemplar lê-se num fôlego, mas deixa-nos sem ar, por transmitir tantas imagens dolorosas e por ser tão palpável a perda de felicidade. No entanto, faz uma travessia muito sensível e emocional pela metamorfose que permite encontrar o amor e abraçar uma espécie de redenção. É por essa razão que estes versos apresentam traços dicotómicos, mostrando que a nossa jornada é feita de luz e escuridão, utopias e certezas, paixões e tragédias. E é o ponto de equilíbrio que comprova que tudo deixa marcas coladas à nossa história.

«entre mim e o meu silêncio há um desentendimento»

A Criança em Ruínas é a ponte para exorcizar males, fragilidades e saudades. E, de modo a colmatar os espaços que ficam ocupados na nossa alma, socorre-se da pluralidade e versatilidade da poesia para mostrar a imensidão dos nossos sentimentos. Direcionando o nosso olhar para o eu que cresce na penumbra, entendemos que qualquer um dos nós, em algum momento, será esta criança: desfeita, a resistir ao caos.

«há muito tempo que te espero. há muito tempo que não vens»

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