Acho que posso dizer que tenho uma relação conturbada com José Luís Peixoto. Já li alguns livros do autor de que gostei e outros que não me disseram muito.
Mas quando vi este «A montanha» na biblioteca, decidi dar-lhe uma oportunidade. E ainda bem, porque é um livro impressionante.
Este é um livro que existe dentro e fora do livro, porque, apesar de ser um romance de ficção, a premissa foi um convite feito ao autor por médicos do IPO do Porto para contar a história de alguns pacientes com cancro (assim a negrito, como aparece sempre escrito no livro).
Este livro é o resultado de muitas conversas com esses pacientes.
Às vezes, a palavra cancro existe na sua própria ausência. As vozes vão para pronunciá-la, mas, no último instante, evitam pronunciá-la, deixam só o espaço vazio. Então, durante esse silêncio, os pensamentos enchem-se de medo.
Mas, o livro vai além disso, porque José Luís Peixoto volta ao seu primeiro livro «Morreste-me» e à relação que tinha com o pai, falando também sobre a sua doença e morte.
O rapaz estava dentro do meu pai e está dentro de mim. Os sonhos estavam dentro do rapaz e dentro do meu pai e estão dentro de mim. O meu pai está dentro do livro e está dentro de mim. O livro está dentro de mim. Eu estou dentro do livro.
E o próprio Escritor existe como um personagem deste livro, dando-lhe uma dimensão diferente e levando-nos a acompanhá-lo na escrita do seu próprio livro. Este livro.
O Escritor encolhia-se debaixo dessa censura, sabia que estava em falta, sentia que o olhar de Bjorn Alepson era a sua consciência a olhá-lo ou, pior, era as pessoas com quem tinha falado no hospital do Porto a olharem-no, era o médico e a psicóloga a olharem-no, toda a gente tinha sido tão prestável, o Escritor tinha prometido tanto, e não havia livro, apenas algumas páginas desconexas, sem encadeamento, apenas expectativas frustradas.
Este é um livro sobre cancro, morte e sobre o medo de morrer. É um livro duro, mas importantíssimo e muito bem escrito. Recomendo muito.
Se já leram, partilhem o que acharam nos comentários. Que outros livros do autor recomendam?
