O luto é uma coisa estranha. Há dias em que não penso na minha avó. Depois, há dias em que vejo uma ambulância com as sirenes e luzes ligadas, ou tenho uma consulta no hospital onde ela morreu, ou há um funeral, ou o mar está picado e lembro-me de como sempre dizia que nunca se vira as costas ao mar.

Hoje, recebi um postal e lembrei-me dos postais que lhe mandava das férias que ela lia com dificuldade, mas guardava sempre. E da fotografia que lhe mandei em que estou ao lado de um elefante que ela pôs na mesa da entrada e que me lembrou que ela nunca tinha visto um elefante. E que a queria levar ao zoo, ao oceanário, a andar de avião, a ter todo um leque de experiências que ela nunca tinha tido mas que já era demasiado tarde porque o alzheimer estava demasiado avançado e ela já quase não andava e era demasiado teimosa para usar a bengala e fico com pena das memórias que poderia ter tido e nunca chegaram a ser.

E, no Natal, lembro-me deste poema de José Luís Peixoto.

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu.

Depois, a minha irmã mais velha

casou-se. Depois, a minha irmã mais nova

casou-se. Depois, o meu pai morreu. Hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha irmã mais

nova que está na casa dela, menos o meu

pai, menos a minha mãe viúva.

Cada um deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. Mas irão estar sempre aqui.

Na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

Enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.

José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas