Por José Eduardo Ribeiro Nascimento
Nas duas primeiras semanas de agosto de 2010 eu estava lendo a série Harry Potter. Estava bastante empolgado, e só pensava em comprar os livros de Tolkien e outras obras de fantasia famosas (como a série Eragon). Certo dia estava na casa de Leonardo, e este me disse: “você deveria procurar outros livros de fantasia, que não seja esses famosos. Deve haver vários livros bons que não fizeram tanta fama”. Pesquisou e me deu o título de alguns livros. No mesmo dia fui à livraria e comprei Jonathan Strange & Mrs. Norrell junto com O Nome do Vento, de Patrick Rothfuss (posts aqui e aqui). Um ano depois de comprado, chegou a vez de ler este pequeno calhamaço de 820 páginas.
Sobre a história (sem spoilers): Na Inglaterra do séc XIX a magia é uma matéria pouco estudada. Há duzentos anos não se pratica mais magia real, e apesar de haver magos, estes são puramente teóricos. Nesse panorama está a Sociedade culta dos magos de York, um recém chegado, John Segundus, lança a questão: Por que não se faz mais magia na Inglaterra? Com essa questão em mente ele conhece Mrs. Norrell, que lhes lança a proposta de provar que a magia prática ainda existe na Inglaterra, mas em troca todos deixariam a titulação de magos, e não mais poderiam estudar magia. Com isso Norrell põe em prática seu plano de dominar a magia na Inglaterra. Depois de algum tempo admite Jonathan Strange como seu discípulo. Strange é orgulhoso e arrogante, e com o tempo se separa de seu mestre. Os magos são empregados pelo governo para a guerra, e para outras funções de ordem econômica, como parar tempestades, mudar rotas de rios etc. Com o tempo Strange vai se envolvendo com magias antigas e perigosas, e o embate entre os dois magos é inevitável…
A história se desenvolve de forma bastante original. O narrador dá a entender que o livro foi escrito pelo próprio John Segundus, um mago teórico, para contar a história dos dois magos, ou seja é um livro Sobre magia (Há no livro o conceito de Livros sobre magia – escrito por estudiosos, falam sobre fatos mágicos, histórias etc., e Livros DE magia, itens raros que realmente ensinam magia. Foram escritos há muito tempo por magos antigos, chamados áureos e praticamente todos pertencem a Norrell).
Clark é uma escritora habilidosa. Descreve muito bem e faz uso de palavras e termos escolhidos propositalmente para dar a impressão que ele foi escrito no séc. XIX. A escritora foi comparada a escritores de peso, como Charles Dickens e Jane Austen. Uma coisa que chama a atenção é que há várias notas de rodapé, algumas chegando a alcançar duas ou três páginas, explicando fatos mencionados no texto. Por exemplo, quando foi pintado um quadro de Jonathan Strange e Mrs Norrell, há uma nota descrevendo como foi a ocasião. Fatos que ocorreram no passado, explicação de componentes mágicos, citações de livros, e de que livro foi tirado (todos livros criados pela autora). Esse tipo de artifício ajuda a ambientar
Diferente do que se possa pensar, os dois personagens principais, Strange e Norrell, não são entidades mágicas perfeitas, apesar de serem os maiores magos dos últimos 400 anos. Eles são pessoas comuns, lembram muito os personagens de Alexandre Dumas, e os defeitos falam mais alto que as virtudes.
O livro é fantástico. Quem gosta de literatura fantástica vai encontrar uma idéia original, um belo desenvolvimento, um ótimo final, que não decepciona e não perde o ritmo do livro em nenhum momento, uma escritora habilidosa, que desenvolveu ótimos personagens, e idéias interessantes sobre a magia e seres mágicos. Termino minhas considerações com o que disse Neil Gaiman sobre o livro:
“It was terrifying from my point of view to read this first short story that had so much assurance … It was like watching someone sit down to play the piano for the first time and she plays a sonata”.
“Unquestionably the finest English novel of the fantastic written in the last 70 years”.

