29/03/2011 · 2:41 PM

postado por Rafaé, aquele do baile…

Olhando aquela foto, ele me dizia o quanto havia sido feliz naqueles quarenta anos. Ou seria nos anos quarenta? Não sei. As pessoas têm mania de falar baixinho quando sentem o frio da morte dominar as pernas. Para poupá-lo da perda de tempo com repetições, não questionei.

Sem forças, não terminou nenhuma frase. Todas foram interrompidas por um profundo suspiro, daqueles que parecem preencher o corpo inteiro sem chegar onde deveria. Sempre com a cumplicidade da fotografia.

Eram lembranças desconexas. Mas ele parecia costurá-las com a imagem em suas mãos.

Não me dei o direito de interromper suas divagações. Permaneci ali, sentado no chão, ao lado da cama que o engolia.

Em silêncio me entregou a foto. Não foi bem surpresa o que senti. Muito menos compreendi aquele olhar que ele depositava ali. O que tive em minhas mãos foi o retrato em preto e branco de um bonde. Talvez o da rua XV. Não reconheci ninguém.

Tentei entender o que ele quase dizia e tinha a cumplicidade daquele bonde. Fiz isso por não-sei-quantos minutos. Talvez nem um. Mas foi o tempo suficiente para derramar uma lágrima, que durou alguns segundos a mais do que ele.

Arquivado em Sem categoria