19/01/2010 · 1:38 AM

Postado por SEU REI: MARCOLA!

Em silêncio entrou na casa e foi à cozinha buscar uma pá. Saiu pelos fundos, olhou para o campo e admirou-se pela segunda ou terceira vez com o cenário. A paleta de cores da noite. Os cheiros que evocavam o passado e construíam o presente. Os sons que compunham a sinfonia da vida plena. Morava ali havia anos e anos. A facilidade de ver as coisas ali dispostas foi o que impediu-lhe de presenciar tal espetáculo antes. A falta do senso de desafio. Mas não agora, obviamente. Não estava imune ao fenômeno da existência. Nem ao da dor profunda.

Aproximou-se do local pré-determinado, e começou a cavar. Passaram alguns minutos. Pausou a atividade, para lembrar-se de alguns dos momentos bons. Certamente que eram intensos, e isso valia o tempo que desperdiçou parado. Nobre foi a dedicação que teve para guardar memórias. Mas a missão era clara. Quase clara. Com a pá fincada na terra, tomou ar e prosseguiu com o trabalho.

O buraco, bastante raso, sorriu, ao perceber que estava pronto. Um sorriso tímido, no entanto. Destes de buracos rasos, que sabem que podem ser desfeitos com qualquer chuva, fraca que seja. Trouxe o que havia para ser enterrado. Enterrou o que havia trazido.

E chorou pelo resto da madrugada, sentado na varanda, esperando pelo amanhecer. Que não avisou que não viria.

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