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Mai24
XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
Manuel Pinto
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... «Se definir ao presente o que seja um poeta é problema bicudo, pelo menos no que a função tem de idealista e vinca o indivíduo dentro da dinâmica social, muito mais o é quanto a uma época sobre que se adensou a escuridão da distância. Pode ter-se o poeta como uma potência do espírito, providencial e mundificadora, espécie de medium do que há de recôndito ou de belo na vida transitória, ou não passa dum tropo, uma arbitrária e exsudada cegarrega de cigarra?!
Debaixo do ponto de vista utilitário, poetar não goza nada foros de actividade apresentável. Assim, presumo que se não encontraria um burguês, bom burguês, que deixasse casar a filha com um homem apenas porque fosse poeta, ou fizesse exame de poeta, ficando aprovado com vinte valores, como não haveria quem lhe tomasse semelhante título em consideração para efeito de ir ocupar um lugar num Banco ou na gerência duma Sociedade. Para dizer tudo, o ofício não recomenda o oficial.
Ora, se hoje é assim, não passando de fumo, reflexo, sombra fátua do que foi, que halo envolvia no século XVI a pessoa dum poeta? Decerto que esta prenda, versejar, viera com os trovadores. Enquanto se confinara à cantiga de amor ou de maldizer, breve e oportuna como um gracejo ou chufa, era missanga do Paço. Desde que entrou para a categoria de arte mesteiral, irradiou para o vulgo. Com isso, o poeta teria ficado mais perto do aedo grego, que andava de terra em terra cantando os feitos de guerra e os amores dos heróis, do que do senhor de cabeleira já tratada, unhas brunidas ao polidor, que se senta à mesa do Círculo Eça de Queirós para fazer coro ao luminar estrangeiro das letras, hóspede de António Ferro. De verdade, que este é o poeta oficial, forma que não existia no século XVI. No século XVI o que existia, de aproximado calibre, eram os rimadores cortesãos. Mas estes cultivavam as musas tão mecanicamente como aprendiam a montar a cavalo ou a dançar. Sem obedecer a nenhum outro mandato superior. E estavam tão longe do poeta livre, do poeta sem coleira, do poeta que canta por inspiração de Deus, se bem que tirando daí o seu pão, como a noite do dia.
Luís de Camões, que não tinha profissão, que nunca a teve, menos a de homem de armas no Oriente, e a aleatória de escrevente público, que viveu pobre e miseravelmente e assim morreu, segundo a legenda gravada na sua sepultura, era desses, de quem são remotos parentes os cegos que ainda hoje cantam pelas romarias ao som roufenho dum harmónio ou duma rabeca desafinada. Mas reparem para as Odisseias que acordam por debaixo da voz trémula, na linha dinástica do rapsodo, e todas as majestades do espírito se erguem nos horizontes. Camões era dos tais, e versejava se lho pedia a inspiração, porque não? mas, não menos, se lhe encomendavam versos, de que tinha oficina, como lavrante de oiro, arrecadas ou pulseiras.» ...
(continua)
publicado às 19:19