... «Os biógrafos modernos, ao quererem dar o painel mais completo possível da sua vida, procederam por acervação como os farrapeiros -- toca a encher o saco -- e naquilo em que se recomendava destrinça, exame, ponderabilidade, fizeram-no de todo a trouxe-mouxe. As únicas fontes de informação consistiam no que fora dito por Couto, Mariz, Correia, Severim, e seguidamente Faria e Sousa. E como operaram? Não sabendo ver, por uma banda, em Luís de Camões o bardo sublime do seu tempo, que poetava para o mundo, que exercia uma profissão pública, divina em si, embora humilde nos foros que gozava; havendo-o, por outra, graduado -- em bom direito -- vulto máximo do génio nacional ou da arte literária, empenharam-se em deificá-lo. Havia vantagem em que fosse fidalgo, palaciano, valente, denodado, heróico, belo homem, simultaneamente desgraçado por contraste e em virtude ainda da confluência opressiva de tantas prendas juntas. E porque assim convinha ao drama e agigantava a pessoa, mantiveram à fisionomia a faceta romântica que vinha de trás. Em obediência ainda ao mesmo lema, tudo o que os biógrafos primitivos aduziram de louvor e exaltamento da pessoa de Camões, aceitaram-no sem nenhuma espécie de rebuço ou escolha, antes requintando-o onde era possivel fazê-lo. Em contraposição, afastaram tudo aquilo que diminuísse ou alterasse o conceito guindado da sua figura impecável, ao molde do Renascimento, em particular recusaram a soma de informações que Faria e Sousa colheu ainda frescas na tradição e meio lisboeta em que o poeta convivera. Pedia esmola ou pediam por ele...? Que deselegância! Suprima-se. Que andava de muletas...? É ridículo. Recebia a pitança duma mulata? Isso não lembrava ao Diabo. Faria e Sousa é um impostor. Vivera pobre e miseravelmente e assim morrera? Não está provado. O autor da Crónica Seráfica não achou tal epitáfio e era homem que escrevia em cima dos Santos Evangelhos. Risque-se a frase ignominiosa do obituário. Para todos os efeitos, Luís de Camões era neto de fidalgos galegos, com raiz numa puebla senhorial do cabo Finisterra; tivera um tio frade, reitor de Santa Cruz e cancelário da Universidade, que o protegera; frequentara o Paço; atara amores com damas de alta bizarria e primeira nobreza do Reino, muito provavelmente com a Infanta, irmã do grande D. João III, o Piedoso.

Ora se estes talmudistas pretendessem fazer obra séria, asseada, de obséquio à verdade verdadinha, e à natureza humana de Camões, começariam por trazer os antigos biógrafos ao tribunal. E interrogá-los-iam, antes de mais nada, em tudo menos aquilo que parece, ao lance de olhos, rebater para o comum a personalidade de Camões. Sim, os simpáticos devotos teriam que responder pela parte em que desorbitadamente o elevaram, isto é, primeiro incidiria o inquérito sobre o ditirambo, a glorificação, tudo o que disseram de excepcional e de requintado acerca do poeta.» ...
                                                                (continua)