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Mai24

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto


... «No trabalho a que se consagraram os biógrafos, principalmente Storck e Teófilo, operou-se um fenómeno que, à falta de melhor, chamaremos de assimilabilidade. Do facto Camões, o que existia de certo certo era o poeta. Pouco se sabia do homem. Para atupir o fosso, vá de endossar-lhe todo o circunstancial próximo e conexo da época, sobretudo da vida literária de Quinhentos. Como ela, espécie de ursa Mariana de reis e potentados, se circunscrevia à Corte, havia que fazê-lo palaciano. De resto, vinha apontada detrás esta direcção, embora errónea de todo, mais expletiva que outra coisa, pelo dedo devoto de Manuel Correia, de Severim, e mormente de Faria e Sousa, que não compreendia que pudesse haver um homem de talento fora dos beirais do Paço e sem tricorne de plumas na mão. 

Toca pois de aglutinar tudo o que de irisado, fagulha, limalha errática, servisse para, sem a deprimir, explicar a pessoa de Camões. E não houve historieta, sucesso de cutiliquê, nome, raconto, anedota que, por obra e graça da fantasia, com maior ou menor adequação, não trouxessem a chumaçar a realidade nua, simples e misteriosa: Camões.

Neste investimento de todo especioso, deu-se um facto desastrado: o pouco que havia de positivo e manifesto confundir-se com o adventício e tomar na indumentária lantejoulada o seu aspecto ludibriante. Mas que importava lá isso?! Pior ainda foi esquecerem-se os hermeneutas de que a actividade poética na época era condicionada por factores de que hoje não resta mais que a vaga memória. Resultou a biografia de Luís de Camões converter-se num romance mal urdido, falso no que respeita à pessoa, e destituído de senso quanto à verdade local.»


publicado às 18:19