CARACÓIS NA LUA ◾ A FENDA NO MEU PEITO
poesia lírica contemporânea, processo de luto, trauma familiar, melancolia e perda
Fotografia da minha autoria«Se eu soubesse como era / sentir-me segura»A fenda no meu peitoQuebrou tudo o que conheciaQuebrou o chão seguroDe uma família amparadaSustentada em amorE a perda que abraçamos de seguidaCegou toda a felicidadeQue dentro de quatro paredesSe repetia, se repartiaHá luz do lado de fora da janelaCom que audáciaQuando é de trevas que se revesteEste quarto, meu interiorSem qualquer manobra de equilíbrioPareceu-me que o destinoBrincou com a nossa dorMas como é que o mundoOusa continuar a girarSe em nós só resta dormênciaFicou o vazioO sofrimentoE a casa desfeitaFicou o teu silêncioE a minha raiva aos gritosFicaram os teus olhos fechadosE eu com uma ferida abertaÉ neste luto que ainda persistoNa ausência que a tua vida se tornouFalta-me o abraço, o teu regaçoUm pedaço de abrigoResignei-me ao abandonoPouco intencionalMas alimentei a culpaDa tua perdaNo choro que ainda te reservoÀ noite, em plena escuridãoFaço as pazes com o passadoSempre a medoMas esta fenda nunca chegará a fechar
Texto originalmente publicado em Entre Margens