Fotografias da minha autoria«Um olhar íntimo sobre uma comunidade rural»O projeto Histórias da Montanha é baseado nas obras Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha, de Miguel Torga. Transmitido pela RTP, e ainda disponível na RTP Play, é composto por cinco histórias, cinco «retratos de vidas humildes, em Portugal, nos anos 40», mostrando, também, o olhar de uma comunidade rural, no qual o sofrimento, a violência e o isolamento são conceitos comuns - e transversais no tempo.A MARIA LIONÇAA Maria Lionça foi a primeira história a ser exibida e, como o nome deixa antever, permite-nos acompanhar Maria Lionça, que, em criança, era a alegria da aldeia e cujo riso era imagem de marca. À medida que vai crescendo, a sua gargalhada torna-se menos expressiva, porque as privações a que fica sujeita fazem-na esmorecer. Mas não totalmente, pois é exemplo de resiliência e de um enorme espírito de sacrifício.Achei muito interessante que o argumento se faça mais de uma componente visual do que através de diálogos: é dito o essencial, tudo o resto percebemos pelos gestos, pelo desenrolar das cenas, até pelos silêncios. Os últimos minutos do filme são impressionantes, porque expressam algo contranatura. É muito emotivo.O LEPROSOO segundo filme centra-se em Julião, brutalmente segregado pela comunidade, quando surgem os primeiros sintomas de lepra. Temendo o contágio, a população afasta-se, mas o jovem tem ainda mais vontade de viver. Além disso, começa a apoderar-se dele uma sede de vingança, o que deixa todos em pânico.É um retrato interessante da condição humana, dos medos que paralisam, dos preconceitos, do efeito da discriminação e da linha ténue entre a dignidade e o egoísmo; entre a empatia e a proteção individual. Estes aspetos levantam questões, a começar por estas: o que faríamos no lugar destas pessoas? Conseguiríamos ser mais altruístas? A juntar a isso, não nos podemos esquecer da época em que se desenrola a ação, atendendo a que a informação e os recursos eram mais limitados.É desolador perceber que Julião perdeu o nome, para passar a ser o leproso, como se a doença fosse o seu único traço de identidade. Imagino a revolta, por esse motivo, sinto que é um filme cheio de camadas.O ALMA GRANDEO terceiro filme do projeto Histórias da Montanha centra-se na história do Tio Alma Grande, cuja função é garantir uma morte discreta aos moribundos. E fá-lo com um único propósito: impedir que, em confissão, revelem os seus segredos e exponham o judaísmo professado clandestinamente dentro de famílias de cristãos-novos. Isaac é um desses moribundos, às portas da morte, mas há uma reviravolta que altera todo o tom da narrativa e, claro, do quotidiano do Alma Grande e da família de Isaac.Não imagino o fardo que é tirar a vida a alguém, mesmo que este «tirar a vida» seja um mecanismo para a salvar da doença, do sofrimento, do perigo que poderá resultar da confissão. Esta dualidade pesa. No entanto, não me consegui envolver com este argumento e acho que parte da culpa se deve à sua duração: tem pouco mais de meia hora e, portanto, parece-me que houve aspetos que se ressentiram disso.É percetível o desejo de vingança, o isolamento e o lado sombrio, mas faltou-me um pouco mais de contexto.A PAGAO quarto filme do projeto Histórias da Montanha centra-se em Arlindo, um galã que utiliza os seus dotes musicais para enganar as raparigas e usá-las a seu bel-prazer. Este comportamento nunca lhe trouxe dissabores, até ao dia em que tentou a sorte com Matilde: ao recusar-se a casar com ela, coloca a sua vida em risco, porque tanto o pai, como os irmãos da jovem não descansarão até que ele pague a sua desonestidade.O argumento tem pouco mais de meia hora, mas, neste, acho que fluiu tudo melhor, com cenas menos precipitadas e sem ruído. Percebe-se a mensagem e não enredam na concretização. Além disso, é mais uma demonstração clara dos valores que regem a comunidade, é mais uma prova que o problema não é a humilhação da mulher, mas o orgulho ferido dos homens da família - mudou tão pouco no tempo.MARIANAMariana é uma mulher independente, com uma vida pacata, que «obedece a dois instintos: maternal e sexual».Mariana parece ir numa longa caminhada, talvez à procura de uma situação mais estável, e envolve-se sexualmente com um homem em todos os locais por onde passa. Assim, multiplicam-se os filhos, bem como a serenidade da protagonista, que se apresenta sempre leve, de sorriso largo e a transbordar de amor.Foi o meu argumento favorito, porque destaca algo essencial: a liberdade de ser. Sendo Mariana mulher, numa época e contexto de mentalidades fechadas, é audaz este quebrar de estereótipos. Afinal, «a terra humilde era ela. Eles atuavam apenas como o vento, que traz a semente e passa». Mariana passou e deixou marca.