A minha primeira vez a ler Miguel Torga.
Miguel Torga é um dos grandes nomes da literatura portuguesa do séc. XX e, como tal, eu nunca o tinha lido. O meu afastamento geral dos autores portugueses é conhecido de quem me conhecer e/ou seguir este blog há algum tempo; é um afastamento que ando a tentar colmatar. O meu companheiro decidiu há uns anos ser o momento para conhecer o autor - e gostou, muito. Eu, ainda assim, andava reticente, pois a minha experiência com contos de autores portugueses não era, até aqui, a melhor - vejam-se as minhas reviews sobre Aldeia Nova ou Jogos de Azar. Portanto, contos de autores (homens) portugueses não eram, até agora, parte das minhas leituras predilectas.
Mas Miguel Torga conquistou-me.
O pé, sem ela querer, foi escavando e arrastando terra... Aos poucos, o seu segredo ia ficando sepultado...
Bichos é um conjunto de contos que versa, precisamente, sobre animais. Aqui, Miguel Torga cria um conjunto de bichos que torna humanos - não antropomorfizando, mas dando sentimentos e emoções -, ou humanos que são, também eles, bichos (porque todos somos animais), em situações várias em que coexistem, coabitam, ou simplesmente estão na mesma missão: a vida.
Assim, um dos temas principais nestes catorze contos é a morte. Não quero, com isto, dizer que é um livro necessariamente triste - alguns dos contos são-no, e muito. Se o conto que abre o livro fala da morte de um fiel cão, Morgado trata de um burro abandonado à mercê de uma alcateia, e temos ainda Miura, sobre um touro que dá por si num redondel.
- Estamos perdidos, Morgado! Raios partam a minha pouca sorte!
Não sabia que razão levava o almocreve a proceder daquela maneira. A que propósito dizia coisas à toa, berrava, batia com força as botas grossas no chão, como se quisesse sozinho fazer barulho por trinta? Talvez tentasse amedrontar as feras, dando a entender que seguia ali um regimento de recoveiros com a respectiva caterva de bestas. Pois sim! Se pensava isso, enganava-se redondamente. Mais por adivinhar que por distinguir, Morgado antevira já uns olhos incendiados de fome a espreitá-los do coração da noite.
Outra das questões abordadas é a ideia de maternidade não planeada - e é em contos como esse que sentimos a dureza da vida de aldeia, e é interessante cruzar com as origens transmontanas do autor: um sítio onde há não só animais de quinta vários, mas lobos, trabalho árduo, e natureza. Muitos dos bichos servem de metáfora; será especialmente visível no caso do último conto, que fala do corvo da Arca de Noé, que nesta versão não aceita a clausura nua arca, causada por motivos que lhe são alheios (pecados humanos), preferindo morrer - e então arrisca voando para longe. Deus é, aqui, posto em causa - bem como a noção de liberdade e a forma como este conceito se relaciona com a sociedade. Relembro a posição política do autor aquando da ditadura, e o facto de este livro ter sido publicado em 1940. Confesso, no entanto, não ter adorado este conto.
Aqui, todo o tipo de bichos, humanos ou não, partilham emoções, dores, amores e trabalho, solidão, necessidades e alegria.
5/5
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